Marcos Piangers: trabalho inglório

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Que trabalho inglório, ser pai. Tenho certeza que, todos os pais que leem isso, concordam que foi a melhor coisa que nos aconteceu. Nos deu significado, alegrias, memórias maravilhosas. Mas que trabalho inglório! Vocês hão de concordar!

A começar com o bebê. Apenas chora e suga e produz xixi e cocô. Apenas devolve todo o leite mamado na sua roupa. Você vira noites, troca fraldas, atende a todos os gritos, corre para dar conta de tudo e o bebê nem para aprender a falar “obrigado”. Uma amiga, depois de dar de mamar por dias sem nenhuma recompensa, percebeu que o neném ensaiava um sorrisinho. “O primeiro sorriso dele!”, pensou. Para descobrir, segundos depois, que eu era apenas mais um cocozão saindo na fralda.

Depois vem a infância. Você vai a restaurantes apenas para ver sua comida esfriando enquanto a
criança corre pelo ambiente aterrorizando garçons. Passam os dias e nada parece estar bom. O infante não valoriza nada: sua comida está ruim, sua roupa pinica, o local está chato, papai e a mamãe só querem dormir! Acordem! Já é seis da manhã!

Mas calma, que piora.

Virá a adolescência e o desprezo completo. A falta de mão dada, o nojo de abraço, o desdenhar dos carinhos. O constrangimento em ser visto ao lado dos pais em público, a vergonha de todo e qualquer comentário dos pais, que de um dia pro outro viraram antigos e patéticos. E nem um obrigado recebemos por tudo o que fizemos.

E tudo é estudo e amigos e namoradas e quando você vê o bebê vai morar sozinho, ou fazer intercâmbio, ou casar. “Mas você é muito novo!”, diremos, para nossos filhos de 40 anos. Eles não telefonarão nem aos domingos, estarão na Europa durante as datas comemorativas, receberemos vídeos mal filmados no WhatsApp.

E então vem os netos. E os filhos voltam a aparecer. E querem que a gente cuide dos pequenos para que possam resolver coisas do trabalho ou ir ao cinema. E cuidaremos felizes daquelas crianças ingratas, mas fantasticamente fofas. E nossos filhos virão pegar seus próprios filhos com pressa, as crianças gritando, aquela confusão que preencherá a vida. E, já indo embora e acenando, sem nem olhar para gente direito, nossos filhos gritarão de longe: “Obrigado pela força!”.

E pensaremos: “não foi nada”.

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