Ler não impede que gostemos de diversão, mas nos capacita para ir muito além

Ler é importante porque nos ensina a escrever melhor, abre horizontes, nos diverte, nos emociona

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Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS

Meses atrás lancei Quem diria que viver ia dar nisso e participei de alguns eventos literários, e nessas ocasiões sempre sou questionada a respeito da importância da literatura. A resposta não é exatamente uma novidade: ler é importante porque nos ensina a escrever melhor, abre horizontes, nos diverte, nos emociona, nos coloca em contato com vivências nunca experimentadas e isso ajuda a minimizar preconceitos, a desenvolver a tolerância e a perceber as minúcias da nossa existência. Não me parece pouca coisa.

Todo mundo concorda com a explicação, acha bonito, mas, no fundo, não leva muito a sério. Então vou tentar exemplificar como a coisa funciona na prática. Anos atrás, recebi um e-mail de um rapaz que não entendia como eu poderia ter gostado de Linha de Passe (direção de Walter Salles e Daniella Thomas, 2008) e O Banheiro do Papa (direção de César Charlone e Enrique Fernandez, 2007), filmes que, segundo ele, não possuem nenhum atrativo: os atores são desconhecidos, os cenários são miseráveis, o figurino é relaxado, enfim, dois filmes pobres. Lembro que ele citou Joãosinho Trinta e sua máxima: “quem gosta de miséria é intelectual”.

Perguntava a razão de tantos cineastas latino-americanos, mesmo quando têm grana (“Walter Salles é filho de banqueiro, pô!”) não fazerem filmes bonitos e agradáveis como O diabo veste Prada, Uma linda mulher e outros.

O garoto é burro? Seria simplismo defini-lo assim. O problema é que ele não tem perspectiva. Aprendeu que riqueza é ter dinheiro e pobreza é não ter, e deste ponto ele não avança. Apesar de os blockbusters citados serem filmes realmente bonitos e agradáveis, Linha de Passe e O Banheiro do Papa são infinitamente mais ricos.

Ele não compreende isso porque possui um conceito de riqueza e pobreza muito literal. Ele daria o Oscar de figurino para O diabo veste Prada baseado nas grifes que Meryl Streep vestiu, sem entender que um figurinista faz um trabalho muito mais conceitual quando coloca um surrado calção Adidas no personagem que interpreta um moleque de subúrbio.

Da mesma forma, já ouvi alguém dizer que não acreditava que se pudesse gostar mais de Paris Texas do que de um filme do James Bond. Sua visão de beleza restringe-se aos locais onde circula o espião: a Riviera Francesa, castelos, cassinos. Milhares de pessoas concordam, pois possuem esse único critério de beleza, o do cartão postal. Precisam encher seus olhos com o luxo, já que têm dificuldade de se comover com a solidão, com o silêncio, com a sutileza, com o mistério. Rechaçam o cenário desértico do filme de Wim Wenders sem identificar o deserto interior que todos nós trazemos dentro. Eles também têm sutilezas e mistérios dentro de si, só que, sem literatura, fica mais difícil reconhecê-los.

Ler não impede que gostemos da pura diversão, mas nos capacita para ir muito além.

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