Por que pedimos perdão por chorar?

Deveríamos, sim, nos sentir orgulhosos por não frear nem disfarçar nossas emoções

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Foto: Pexels

Era janeiro e fazia muito calor. O Instituto Ling recém havia sido inaugurado e eu estava excitada para conhecer um dos pontos culturais mais bacanas de Porto Alegre, então fui até lá para assistir a Ayres Potthoff (flauta), Daniel Wolff (violão) e Rodrigo Alquatti (cello) no show Beatles em Concerto, num fim de tarde sofisticado, divertido e musicalmente impecável.

Pois bem. Durante o espetáculo, um dos integrantes pediu licença para abrir um parêntese na playlist de sucessos da banda inglesa. Ele queria tocar uma música que seu pai, recentemente falecido, havia composto. Diante do consentimento da plateia, pediu: “Vou tentar tocá-la até o fim, mas me perdoem caso eu me emocione”. E tocou belamente, com a emoção controlada, ainda que visível.

Na hora, pensei: por que raios a gente pede desculpas por se comover? Lembrei de algumas pessoas que já caíram em prantos na minha frente escondendo o rosto, envergonhadas, e as compreendo, pois também tenho vontade de sumir quando choro diante dos outros.

Os psicanalistas, acostumados a debulhações diárias em seus consultórios, poderiam responder: quando acontecem, seus pacientes costumam se desculpar?

Ninguém tem culpa alguma de sofrer, ninguém tem culpa por se sentir frustrado, ninguém tem culpa por sentir saudade, ninguém tem culpa por não conseguir reagir a seco às suas desordens internas. Deveríamos, sim, nos sentir orgulhosos por não frear nem disfarçar nossas emoções, por permitir que elas extravasem, autorizando os outros a testemunharem esse momento em que estamos tão desprendidos, sendo tão humanos.
Curiosamente, o contrário não envergonha. Mais do que nunca, as pessoas têm sido grosseiras, estúpidas, deselegantes no trato, e não lhes bate um pingo de remorso, nenhuma inibição. Pedir desculpas, nem pensar.

Então por que pedir perdão por algo tão bonito, que é estar emocionado? Acho que a pessoa emocionada se desculpa pelo constrangimento involuntário que causa aos outros. Sabe que a plateia, seja ela formada por várias pessoas ou por uma só, se sente fragilizada diante de uma pessoa comovida. Ao testemunharmos alguém em situação tão delicada, não sabemos como agir, o que dizer. Quando alguém chora à minha frente, pareço uma pateta, não sei se abraço, se finjo que não está acontecendo nada, se começo a chorar também. Quase sempre começo a chorar junto.

É por isso que certas pessoas pedem desculpas pela própria comoção. Sabem que a emoção exposta não deixa ninguém indiferente, exige uma reação, e eles não querem dar trabalho. Pois é, os sentimentais têm dessas nobrezas.

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