Por que um decote incomoda tanta gente? Deputada de SC fala sobre a presença feminina na política

Um decote deu pano pra manga. E virou ato político. Nessa entrevista, Paulinha fala sobre machismo, feminismo e a presença da mulher na política

Deputada estadual Paulinha (Foto: Leo Munhoz)

Seria mais uma sessão normal de posse de deputados estaduais se Ana Paula da Silva, a Paulinha (PDT), não levantasse a mão direita ao prestar juramento, deixando à mostra o decote do macacão vermelho que vestia. Ela já foi empregada, assessora em Brasília, ajudou a construir o Pronatec, foi prefeita de Bombinhas, mas naquele momento, só uma coisa importava: o decote de Paulinha.

Foi uma chuva de comentários nas redes sociais, a maioria negativos, escritos por homens e mulheres. O tom passou daquele comum às críticas na internet, recheadas de moralismo. Teve ameaças e menção ao estupro. Paulinha teve medo e vergonha. No dia seguinte, nem queria sair de casa.

Mas recebeu apoio da família — ela é mãe de duas mulheres —, amigos e eleitores. Decidiu processar autores de ameaças, se defendeu e, na sessão da última terça-feira, na qual o governador leu a carta que abre o ano legislativo, Paulinha estava lá, novamente, decotada. Usando roupas que usa normalmente. Um decote deu pano pra manga. E virou ato político. Nessa entrevista, Paulinha fala sobre machismo, feminismo e a presença da mulher na política.

Paulinha e o governador Carlos Moisés (Foto: Leo Munhoz)

Na sessão de terça-feira, você usava decote novamente, o que mostra que os comentários negativos não mudaram teu jeito de se vestir. Manter teu estilo agora é um ato político?

Olha que eu até fechei um botão, tá? Eu falei com algumas meninas sobre isso. Tem a violência que a sociedade nos impõe, e tem também o modo como a gente pensa. Eu quero te contar coisas positivas que aconteceram comigo. Claro que teve toda a parte ruim, ninguém merece ter xingado. A parte boa é que a gente aprofundou em vários núcleos de discussão feminina, e até mesmo com alguns homens, essa reflexão sobre o comportamento, sobre aquilo que se espera da mulher, num ambiente formal, num ambiente público. Quantas vezes a gente não se autoviolenta? Conversando com as meninas aqui mesmo da casa, as funcionárias, quantas vezes a gente vestiu uma roupa e queria tanto sair com ela, mas acabou saindo com outra? Quantas vezes a gente fecha um botão a mais, e fica como não quer, pra se sentir aceita? E, ao longo do tempo, pra se sentir aceita nesses ambientes que “são dos homens”, a gente acaba perdendo muito da nossa leveza, da nossa graça. É essa autoviolência que muito tempo atrás eu não me permiti mais viver. Eu fiquei assustada quando cheguei na Assembleia. Você vai ver que meu estilo sempre foi muito próximo daquilo que usei. Na posse era uma festa, um momento festivo. Eu cheguei na loja e todas as meninas vieram me ajudar a escolher a roupa. Eu provei milhares. E o macacão vermelho foi uma coisa que todas elas falaram “tem que ser essa roupa”. Eu provei em casa, com as minhas filhas. Era a roupa que eu escolhi com o propósito de me sentir bonita, e não de causar furor ou provocação. Mas o fato é: nossa participação na política é tão minúscula que quando a gente chega, no nosso formato, parece que o mundo vai acabar. “Não está apropriado”. Mas não está apropriado por quê? O que é o apropriado? Eu penso que é uma deturpação de valores éticos e morais ficar julgando as pessoas pela forma como elas se vestem. Santa Catarina é o quarto estado do Brasil que mais agride suas mulheres. Como eu sou uma mulher muito empoderada, eu nunca dei muita bola pra esse processo. Nesse caso, não deu. Eu não teria força pra olhar pela janela no sábado se não fosse o apoio que recebi. Mas foi bom pra eu me dar conta de onde vem a violência. Porque eu nunca senti. E foi uma certa chamada de atenção pra que eu pare e observe essa violência. Agora mesmo é que eu não posso mudar esse meu estilo. Porque se isso acontece comigo, que sou deputada, imagine com a funcionário de uma loja, com uma mulher numa fábrica.

Acredita que essa censura é uma forma de controle?

Todas as minhas amigas, em algum momento, ouviram do companheiro “pô, não vai com esse roupa, né? Bota uma roupa mais comportada”. Isso está na sociedade de uma maneira como se a gente precisasse ser controlada. Isso ataca a autoestima da gente, afeta nossa felicidade. Foi engraçado que esses dias um amigo disse “Paula, estamos ansiosos pelo próximo modelito”. Eu falei pra não me colocar essa responsabilidade porque vão se decepcionar. Porque tem dias que a vontade é sair de casa de pijama. Com certeza, algum dia eu vou vir trabalhar de jeans, camiseta, de cara lavada. A mulher se veste de acordo com seu estado de espírito. Mas a gente tem que ter o direito de ser o que a gente é, independente do local em que trabalha, se tem homens, se não tem. Outras mulheres que trabalham na vida pública me disseram que se sentiram reconfortadas por eu ter essa coragem, porque muitas vezes queriam usar determinada roupa, mas trocaram por causa dos comentários. Isso não é justo. As pessoas não se dão conta que esse tipo de comportamento vai evoluindo para a violência. Patrocina a violência que a gente recebe nos nossos lares.

Chamou muita atenção os comentários de outras mulheres, criticando, xingando. Como você viu isso?

Sem dúvida mostra que o machismo não está só nos homens, e nossa parcela de responsabilidade é maior porque em todos os lares a educação dos filhos fica mais delegada à mãe. A mãe é que diz para a filha não usar tal roupa, não se comportar de tal jeito. Para os meninos, sempre há mais liberdade. O comentário da mulher é o mais cruel. Um dos comentários que mais me afetou foi o seguinte: eu sempre termino minhas postagens escrevendo algo sobre Deus, porque eu sou uma mulher de fé, e essa pessoa escreveu algo do tipo “você deveria ser proibida de mencionar o nome de Deus porque gente do teu tipo Deus não abençoa”. As mulheres realmente são muito cruéis e o enfrentamento que a gente tem que fazer do machismo tem que começar por isso. Por estabelecer uma linha de diálogo com as mulheres. Uma mulher escreveu que eu deveria ter “dado” pra todo mundo pra chegar onde cheguei, e vim pra Assembleia pra “dar” pro resto. Imagina você ler um comentário desse de uma outra mulher.

E como você chegou aonde chegou? Fale um pouco da sua trajetória na política.

Não foi uma escolha, foi uma questão de instinto. Com 14 anos, eu já era líder do movimento estudantil. Eu sempre fui muito contestadora. Eu vim de uma família muito pobre, passamos por algumas necessidades da vida. Eu nasci em Floripa, mas logo mudamos para Bombinhas, que é a cidade de origem da minha mãe, e teve momentos que a gente não teve um sapato pra calçar. Com 13 anos eu já não morava mais em casa, tinha ido com uma amiga da minha mãe para o Rio Grande do Sul para trabalhar numa malharia e ajudar nos afazeres de casa, e estudar, porque Bombinhas não tinha muitos recursos. A política chegou pra mim de forma natural. Do movimento estudantil acabei me tornando dirigente nacional da juventude socialista, do PDT, que é o organismo jovem do meu partido, aí fui morar no Rio. Fui assessora do secretário de estado de Administração. Tive um período em Brasília, fui por quatro anos diretora nacional de qualificação, onde ajudei a construir a lei do Pronatec, um dos programas de qualificação mais bem sucedidos do país. Aí retornei para a minha cidade para ser candidata a prefeita. Fui vereadora e perdi a eleição para prefeita. Ouvindo todo tipo de comentário preconceituoso que você pode imaginar, porque eu ainda era bem mais jovem. Perdi a eleição e fui convidada pela direção nacional pra ir pra Brasília, fiquei aqueles quatro anos lá, e voltei em 2012, no último dia para a convenção, e me coloquei como candidata novamente a prefeita e venci as eleições. Ofereci um trabalho de entrega tão verdadeiro, tão pleno, que fez da cidade um destaque que o estado inteiro reconhece.

Você vem de Bombinhas, uma cidade pequena, antiga, de pescadores. Durante teu mandato como prefeita, foi criticada pelo seu modo de se vestir, por ser mulher?

Nunca, jamais. Por isso que cheguei desse jeito meio fora de contexto aqui na Assembleia (risos). Minha cidade sempre foi muito generosa, amorosa comigo. A comunidade evangélica, que é enorme em Bombinhas, votou em mim. Claro que eu não uso decote todo dia, mas quando eu vou pra praia, eu vou com o menor biquíni que eu possa usar, porque eu gosto de ficar com a marquinha. Nunca ninguém achou errado, porque as pessoas me viram lá, desde pequena, andando descalço.

Enquanto era prefeita de Bombinhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Você é casada?

Sou separada há sete anos, por isso sou assim, uma mulher rebelde. Nosso relacionamento depois de 15 anos terminou. Tenho uma filha de 20 anos e uma de 18. São duas meninas incríveis. Tenho namorado, desse mundo político.

Qual foi a reação deles após a posse?

Isso afetou toda minha rede de relacionamentos. A gente chorou, ficou sentido. Foi ruim num primeiro momento, mas teve afeto genuíno e compreensão. Minhas filhas diziam pra eu não ficar triste, que eu estava linda. Meu namorado também. Foi legal o conforto familiar.

Você já deu entrevistas se declarando feminista. De que maneira o feminismo está presente na tua vida, na criação das tuas filhas?

A minha filha mais nova é adventista, mais conservadora no modo de se vestir. A mais velha é muito parecida comigo. Ela se permite mais viver essas muitas mulheres que temos dentro da gente. Mas as duas são absolutamente feministas. Esses dias li um artigo que trata o feminismo. Ser feminista não é uma escolha, não é uma opção, é necessário. Todo mundo tem que ser feminista. E feminista não significa não se depilar, ser grosseira, não tem nada a ver com isso. Com não usar decote ou usar decote. Ser feminista é unicamente querer que as mulheres sejam tratadas da mesma forma que os homens, tenham direitos iguais, e possam fazer suas escolhas. Só isso. E é nesse modo que eu tenho criado minhas filhas. Para que não se entreguem a esse sistema que quer nos disciplinar, nos doutrinar.

Com as filhas Manuela e Mariana (Foto: Arquivo Pessoal)

As questões de gênero serão pauta do teu mandato da Alesc?

Essa é uma pauta que eu não posso fugir. A gente tem construído uma relação muito legal com as outras mulheres deputadas aqui na casa, e acho que juntas vamos propor iniciativas nesse sentido, e que muitos homens vão abraçar essas pautas com a gente.

As mulheres que também se elegeram nessa legislatura, a com maior presença feminina na história da Alesc, te procuraram para falar sobre o ocorrido?

Sim, todas elas, de alguma forma, ofereceram algum apoio. A Marlene Fengler (PSD) e a Luciane Carminatti (PT) com mais presença. A Marlene redigiu um super texto, publicou nas redes sociais, elas vieram aqui. O presidente da casa também me visitou, muito elegante. Os colegas todos também, que eu encontrei ao longo do dia, me receberam com muito afeto.

Que lição você tirou dessas críticas?

Uma hora a gente vai ter que parar de se adaptar às regras. As que precisam ser impostas à sociedade são aquelas de conduta ética, moral, não aquelas que tem a ver com nossas escolhas pessoais. A liberdade individual precisa ser, de todas as formas, preservada. Se eu consegui chegar até aqui desse jeito, eu não posso mudar de agora em diante. Eu só quero ter o direito de ser uma mulher normal, acordar, tomar um banho, vestir a roupa que quiser, olhar no espelho e achar que estou bem. É meu direito fazer isso. E eu não acho que por conta de uma função uma mulher precise mudar. O país está atrasadíssimo.

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