Doses de felicidade: conheça histórias de quem adotou a prática de esportes como estilo de vida

A designer Nath Godinho adorou a prática de esportes depois de adulta. Foto: Tiago Ghizoni

Por Fabiano Moraes, especial

A atriz Jane Fonda, linda aos 80 anos, declarou recentemente que a beleza é uma combinação de genes e dinheiro. A frase, dita em tom jocoso, vale como antítese para um contingente cada vez maior de pessoas que buscam menos a beleza como fim e cada vez mais o bem-estar como um caminho.

Antes que os novinhos corram para o Google: essa senhora nascida em Nova York revolucionou o mercado fitness nos anos 80 ao lançar a série de vídeos de exercícios físicos Jane Fonda’s Workout. A musa da aeróbica vendeu 17 milhões de cópias de fitas VHS, criou um nicho, capitaneou e capitalizou a febre da ginástica no mundo.

Eram outros tempos. Tempo dos baby boomers norte-americanos. Uma geração que até praticava esportes, mas embalada pelo som frenético dos sintetizadores que infestavam a música da época. Usavam faixas coloridas na cabeça e vestiam maiôs cafonas em tons rosa pink coruscante. Eram movidos a cafeína e anfetaminas (e outras substâncias estimulantes) e viviam presas a um círculo social em que você se resumia ao que o seu dinheiro podia comprar.

Mas os anos 80 ficaram para trás. Ok, é possível afirmar que a aeróbica oitentista hoje se chama crossfit, e que vivemos em um ritmo ainda mais acelerado. Podem dizer ainda que nossos olhos, sempre grudados na tela do smartphone, na verdade procuram por algum antídoto contra a frustração. Mas também é fato que praticar esportes ganhou matizes complexas e com muito mais significados positivos do que antes.

Não se trata de conhecer a dieta low carb do momento, a melhor marca de whey ou de levar realmente a sério as dicas de alguma blogueira. É sobre escolher o esporte como linha condutora de um estilo de vida. Sobre ser um atleta moderno.

Tome como exemplo conceitual um homem de 42 anos que pratica a mesma modalidade esportiva há 28. De algum modo, todas as suas escolhas – as boas e as ruins – estão ligadas ao esporte. Relacionamentos, filhos, carreira, mudança de cidade, viagens, alimentação, a necessidade de manter-se saudável. É esperado que, após tantos anos de dedicação, ele tenha tido uma carreira minimamente vitoriosa como atleta profissional, resultados importantes em competições, lindas fãs no seu encalço, entrevistas para jornais, sites e emissoras de tevê. Mas não.

A verdade é que esse jovem senhor sempre foi um praticante anônimo, com um desempenho esportivo bom o suficiente apenas para não passar vergonha quando há gente observando. Então, qual o propósito disso? Qual a razão para tanta dedicação se você não é e não quer ser um atleta profissional? Talvez a razão não explique. Talvez seja só uma versão evoluída e menos afetada da aeróbica de três décadas atrás. Ou uma forma de fugir dos problemas – um tipo de contraponto saudável à obsessão contemporânea por visibilidade e pertencimento manifestada em posts, comentários e likes.

Seja como for, é menos sobre benefícios estéticos e mais sobre como conseguir uma pequena dose diária de felicidade. Se a receita funcionar, quem sabe será possível receber um “bônus por bom comportamento ao longo do tempo” e chegar aos 80 anos incrível como a Jane Fonda. E sem contar com a genética
– ou o dinheiro.

A Versar conversou com Fernanda, Luciana, Nath e Valmor. Pessoas comuns. Gente como eu e você. Os quatro podem ser considerados atletas modernos, pois levam a vida tentando equilibrar as equações que envolvem trabalho, família e amigos, mas também dedicam um tempo na rotina diária para cuidar da saúde física e mental praticando algum esporte.

Luciana Sobreira

  • 46 anos
  • Administradora
  • Casada e mãe de uma menina de nove anos
  • Faz triathlon
  • Algumas competições de que participou: Triathlon São Francisco do Sul – Sprint (2014), Iron Man Lima (2017), Meia Maratona Internacional de Floripa (2017) e Challenge Half Florianopolis 70.3 (2017)
Foto: Betina Humeres


Qual a primeira lembrança de infância praticando esportes?
Meus avós tinham uma casa em Paquetá (ilha próxima ao Rio de Janeiro) e eu passava as férias todas lá andando de bicicleta. O dia inteiro.

Há quanto tempo você pratica triatlhon? Por que escolheu um esporte tão desgastante?
Pratico desde outubro de 2014. Comecei a correr em 2011, em provas de 5 e 10 km. No final de 2013, tive uma fratura por estresse no joelho e passei três meses de muletas. Pedi à médica que me liberasse para fazer algum tipo de exercício e ela só liberou natação. Eu não sabia nadar. Isso foi em fevereiro de 2014. Minhas treinadoras de natação são árbitras de triathlon e disseram que eu nadava bem e me incentivaram. Em julho retornei aos treinos de corrida, em outubro de 2014 comprei uma bike e comecei a treinar triathlon. Fiz minha primeira prova em dezembro de 2014. Acho que o triathlon me escolheu. Não consigo me imaginar sem o “nada, pedala e corre”.

Descreva um dia da sua rotina de trabalho e treinos.
Terças e quintas eu acordo por volta das 5h50min e saio para correr às 6h30min. Normalmente os treinos duram uma hora (próximo das competições eles são mais longos). Chego em casa, tomo banho e saio para trabalhar. Antes, deixo a minha filha na aula de natação. Por volta das 18h15min, pego minha filha na escola, deixo na casa da minha mãe e vou nadar. O treino dura em torno de uma hora. Na volta, vou fazer tarefa da escola com ela e tentar arrumar algo em casa e as coisas para o dia seguinte. Quartas de manhã tenho treino de fortalecimento/musculação e, à noite, pedal no rolo, em casa. Também tenho que levar minha filha ao jazz, então tento fazer o treino todo durante a aula dela. Quando não dá, divido o treino em duas partes: durante o jazz e quando voltamos pra casa. Segundas não treino e nas sextas somente natação à noite.

Que conselho daria para quem quer seguir o exemplo?
Vale a pena. Faz muito bem para o corpo e a mente e ajuda a lidar com o estresse do dia a dia. Sem querer, passo a ser um exemplo para a minha filha, que sabe que, quando queremos fazer algo, conseguimos. Embora o triathlon seja um esporte competitivo, minha competição é comigo e eu tento melhorar a cada dia. Tentar ser um pouco melhor a cada dia vale pra tudo na vida.

 

Nath Godinho

  • 27 anos
  • Designer
  • Namorando, sem filhos
  • Faz academia
    Foto: Tiago Ghizoni

     

    Qual a primeira lembrança de infância praticando esportes?
    Não era tão ativa. Fazia o que todo mundo faz na escola, nas aulas de educação física. Eu era aquela “menininha de apartamento”. Mas tive que me mexer depois.

Em que momento deu o “clic”? Já adulta?
Foi. Na verdade, eu sempre tive meu irmão como exemplo. Desde os 18 anos ele teve alimentação saudável, fazia exercícios. Até hoje tem esse estilo de vida. Aí, eu, com 21, 22 anos, entrei na academia. Fazia faculdade na época, sempre trabalhei e nunca tinha tempo sobrando. Mas foi assim. Resolvi adotar isso para a minha vida.

Pretende se manter ativa para sempre?
Sim. Não sou nenhuma “trincada” ou rata de academia, mas minha composição corporal está muito melhor agora do que quando eu era sedentária. Você fica mais ativa, mais ligada. Se interessa por esse mundo de alimentação, começa a ler mais, a questionar mais. Isso vai fazendo parte de você.

Como é a sua rotina?
Quando estava numa agência de publicidade, era zero tempo. Fazia academia ao meio-dia, que era o tempo que eu tinha. Tomava banho lá mesmo, almoçava e voltava para o trabalho. Na época da faculdade, fazia academia à noite. Sempre tento encaixar conforme a minha vida está no momento. Agora trabalho no modelo home office e vou à noite. Tento ir em média três vezes por semana. Eu me cuido, mas não abro mão da vida social, de comer uma comida gostosa com a família, essas coisas. Não sei… Não piro muito com isso, sabe? Sigo a minha vida do jeito que dá.

Valmor Salvaro Júnior

  • 35 anos
  • Cirurgião orofacial
  • Solteiro, sem filhos
  • Joga beach tennis
  • Algumas competições de que participou: circuito estadual e IFT Mormaii
Foto: Léo Munhoz

Qual a primeira lembrança de infância praticando esportes?
Os fins de semana no clube onde meus pais frequentavam e eu aprendi
a jogar paddle.

Há quanto tempo você pratica beach tennis? Por que escolheu esse esporte?
Faz nove meses que comecei. Como joguei paddle na infância, sempre tive vontade de retornar a um esporte com raquete. Em 2001, vim para Floripa estudar e não era um esporte muito praticado, então procurei esportes de luta, como muay-thai e jiu-jítsu. Em fevereiro de 2017, acompanhei várias postagens de uma amiga que já havia iniciado antes do verão. Me chamou a atenção a animação dela e do pessoal nas fotos. Liguei e disse a ela que estava aguardando um convite para aprender. Após nosso primeiro jogo, fechamos dupla para um torneio e não paramos mais. Sou muito grato a ela por ter sido minha primeira parceira e por me ensinar a jogar com alegria. Ela me ensinou a não olhar para os torneios e jogos apenas com vontade de ganhar, mas, principalmente, de se divertir.

Descreva a rotina de trabalho e treinos.
Mantenho minha agenda sempre à disposição dos clientes. Tenho uma grade de horários bem variada, muitas vezes trabalho até tarde da noite e também aos fins de semana. Mas sempre que sobra um tempo, fujo para um jogo ou aula. Faço uma ou duas aulas de 60 minutos por semana. Nos fins de semana chego a jogar de seis a 10 horas. É um vício.

Que conselhos daria para quem pretende seguir o seu exemplo?
Chamar os amigos e procurar uma quadra para brincar. Tudo começa como uma brincadeira. Caso goste do esporte, acho importante um treinamento com um bom professor. Assim você evolui com boa técnica e movimentos eficientes. É um esporte que realmente vicia e permite que pessoas de diferentes tipos físicos, idades ou condição social entrem em quadra e joguem uma partida que, acima de tudo, deve ser vista como diversão. Aí está o segredo: seus adversários devem ser seus melhores amigos, pois eles são as pessoas mais necessárias para a sua evolução.

Fernanda Fernandes Foggaça de Almeida Sperotto

  • 35 anos
  • Life coach e advogada
  • Casada e mãe de uma menina de cinco anos
  • Pratica corrida
  • Algumas competições de que participou: Meia Maratona de Floripa (2017), Meia Maratona Uninter (2017) e Corrida Solidária de Natal (2017)
Foto: Arquivo Pessoal

Qual a sua primeira lembrança de infância praticando esportes?
Não é algo gostoso de ser lembrado. Fui obesa dos nove aos 14 anos e, por conta disso, não fui da “turma dos esportes” do colégio, até porque a quadra onde aconteciam as aulas de Educação Física era o principal “palco” do bullying. Por obrigatoriedade da grade curricular e também da nota na disciplina, participava das aulas e praticava vôlei, basquete, futebol, atletismo, mas não havia paixão pelo esporte. No contraturno escolar, durante alguns anos participei de aulas de patinação e, essas sim, eu adorava. Me sentia leve e livre na maior parte do tempo. Pensando sobre isso, me dei conta agora de que sinto a mesma sensação de liberdade na corrida, quando o vento encontra o meu rosto…

Há quanto tempo você pratica corrida? Por que escolheu essa modalidade?
Pratico há 10 meses, mas minha vontade de correr já existia. Precisei ser convidada e incentivada por um grupo de corrida composto por amigos para dar início a algo que queria realizar: corridas de rua. Escolhi a corrida por ser uma modalidade que movimenta corpo e mente. Já no início senti os benefícios: corpo leve, diminuição da ansiedade, sensação de bem-estar, energia ao longo do dia. Além disso, não exige grandes equipamentos ou preparações, preciso apenas de um tênis e uma roupa confortável. Posso correr ao ar livre na cidade em que estou ou na esteira da academia. Isso facilita muito.

Descreva um dia da rotina de trabalho e treino.
Gosto de correr pela manhã. Então, nos meus dias de treino (normalmente três vezes por semana), acordo às 7h, tomo um bom café da manhã e vou para o calçadão da Meia Praia (em Itapema). Os treinos costumam durar em média 40-60 minutos. Nesse período aproveito para refletir sobre meus objetivos pessoais e profissionais, costumo ter muitos insights. Organizo mentalmente o meu dia, aprecio as belezas do nosso litoral, converso com Deus. Volto pra casa com o corpo cansado, mas com a mente leve.

Que conselhos daria para quem pretende seguir o seu exemplo?
Ser auxiliada por um profissional da área é fundamental. É ele quem conduz meus treinos, me ensina a não me lesionar e me motiva. Outra coisa que me ajudou muito foi descobrir o meu propósito com a corrida. Descobri que correr é o melhor remédio para a minha ansiedade e gera muitos aprendizados. Por exemplo: que eu posso realizar qualquer coisa (ou correr a distância que quiser), desde que eu faça o que tem de ser feito (treinos) para alcançar o resultado. É uma lição que eu utilizo muito na minha vida.

Dilema: ser um atleta de todos os dias ou de fim de semana?

Se, por um lado, usar o sábado e o domingo para cumprir toda a cota de atividade física da semana pode trazer benefícios – ainda que pequenos – à saúde, por outro, justamente a falta de regularidade aumenta os riscos de problemas cardíacos e lesões musculares. Uma informação a mais adiciona gasolina ao fogo da dúvida: pesquisas realizadas na área da Saúde mostram que os perigos são ainda maiores para quem não se exercita nunca. Então, o que fazer?

Segundo o César Goulart, especialista em Medicina do Esporte, é possível seguir a lógica do “um pouco é melhor do que nada”, mas com cuidados redobrados
e sem abrir mão de um acompanhamento médico.

– Check-up antes, durante e depois. Sempre. Dependendo da idade, o acompanhamento é mais ou menos intenso. Devemos lembrar que a busca é por uma melhor qualidade de vida e não acumular lesões ou até ter problemas graves como um infarto – alerta o médico.

Qual a quantidade ideal de exercícios?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMC), a recomendação é que adultos façam pelo menos 150 minutos por semana de atividade aeróbica, com intensidade moderada. Outra opção é pelo menos 75 minutos por semana de atividade aeróbica vigorosa, ou de combinações equivalentes. A entidade também recomenda praticar exercícios de força, como a musculação, no mínimo duas vezes por semana.
A OMC também dá uma dica para cumprir essa meta: distribuir as atividades ao longo da semana. Faça 30 minutos de atividade moderada de segunda a sexta, por exemplo. E diversifique os exercícios de força, para que diferentes grupos musculares possam ser trabalhados, evitando sobrecarga.

Papo com a especialista

Carla Maria de Liz é doutora em Ciências do Movimento Humano e esclarece dúvidas sobre a prática de esportes. Leia a entrevista:

Aquela máxima que diz “não importa qual esporte você faz, o que importa é fazer algum esporte” é mais importante nos dias de hoje, em que temos menos tempo para cuidar do corpo?

Há uma grande diversidade de esportes e exercícios oferecidos por clubes e academias. É praticamente impossível não nos identificarmos com algum. Se você gostar do esporte ou exercício que está praticando, certamente ele será uma prioridade em sua vida e você encontrará tempo na agenda para executá-lo.

Algumas revistas de fitness e wellness apontam como tendência trocar a academia por atividades ao ar livre, sobretudo nos dias de verão. Até que ponto isso é possível?

Isso não deve ser uma regra. Hoje em dia, as pessoas visualizam treinamentos estilo “receitas de bolo” na internet, que funcionou para determinada pessoa, e vão fazer a mesma coisa, sem considerar sua individualidade biológica. Praticar exercícios físicos ao ar livre, sem acompanhamento e prescrição de um profissional de Educação Física é o mesmo que se automedicar, por exemplo. Você não sabe o que tem exatamente, mas vai tomar remédio para dor de cabeça porque é o que está sentindo no momento. Isso acarreta lesões e malefícios para a saúde.

Hoje temos o atleta moderno, que pratica esporte com regularidade e se preocupa em prevenir lesões e melhorar o desempenho. O que alguém com esses hábitos ganha na comparação com um atleta de fim de semana?

O atleta moderno geralmente é o que se beneficia com a prática de exercícios físicos. Ele está ciente das limitações e dos benefícios do exercícios a longo prazo. O atleta de fim de semana terá muito mais chances de sofrer com lesões e fadigas, pois não respeita – ou desconhece – variáveis fundamentais do treinamento físico (volume, intensidade, duração, frequência…) e, muitas vezes, seu próprio corpo.

Ser um atleta de todos os dias ou de fim de semana?

Ser um atleta de fim de semana nunca é uma boa pedida para se desfrutar dos benefícios da prática de exercícios ou esportes. Agora, se você praticar exercícios físicos duas ou três vezes por semana e jogar futebol no final de semana, por exemplo, não poderá ser considerado um atleta de fim de semana, pois tem uma rotina de treinamentos e ainda complementa com algum esporte nos dias de folga.

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