Proteção à família

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O retorno da censura é uma cortesia dos atuais governantes brasileiros, que parecem não ter outra preocupação a não ser proteger nossa família – até emociona tanta gentileza. O prefeito Crivella, do Rio, tentou recolher uma história em quadrinhos publicada 10 anos atrás porque soube pelo twitter que haveria em suas páginas uma ilustração que ele considerava imprópria para menores. Fez tanto estardalhaço que acabou projetando o que gostaria de ocultar: o desenho de dois personagens do mesmo sexo se beijando foi parar na capa dos jornais, viralizou nas redes e todo mundo viu. Um erro estratégico, mas valeu a intenção, ele só queria nos proteger.

O atual presidente do Brasil foi eleito, entre outras razões, porque também prometeu proteger nossas famílias: ele garante que o cinema nacional não mais fará corar as senhoras de bem e continua incentivando cada pai a dar uma coça em seu filho ao primeiro sinal de que ele possa vir a ser maricas. Ufa, estamos protegidos.

Uma pena não termos tido essa sorte antes. Poderiam ter nos privado dessa onda feminista, em que mulheres vêm a público lutar contra a violência doméstica e contra salários desiguais, quando deveriam estar atrás de um fogão preparando o jantar do marido e limpando os ouvidos da criançada, cumprindo assim seus deveres de mãe e esposa. Um governo protetor jamais decretaria luto oficial pela morte de Leila Diniz, e sim divulgaria um “vade retro” em alto e bom som, para evitar que o mulherio valorizasse maus exemplos.

Mas não. Deixaram passar a pílula anticoncepcional, o seriado Malu Mulher, a lei Maria da Penha. Só podia acabar em Bruna Surfistinha.

Eis que nossas famílias agora estão assim, desamparadas, precisando com urgência da tutela de homens sábios como Bolsonaro e Crivella. Graças a essas criaturas magnânimas, nossos filhos se sentirão tão envergonhados de serem “impróprios” que casarão com pessoas que não amam, e serão infelizes e recalcados como manda o figurino. Nossas famílias temerão a liberdade, vivendo tranquilas como gado num curral, mugindo em uníssono. O pensamento será condicionado, os questionamentos serão silenciados e as janelas que dão para o mundo, cerradas. Deem-se as mãos, irmãos. Não precisamos de arte, pesquisa, abertura. Não precisamos de empatia e de informação. É perigoso conhecer novas culturas, descobrir como vivem e sentem as pessoas que não são como nós. Fechem os olhos, apaguem a luz. Repitam: só há uma única maneira de ser feliz, nenhuma outra. A maneira certa é a de quem traz a Bíblia embaixo do braço, sem precisar ler mais livro algum. Acreditem na sorte que tivemos: o mito veio nos salvar da tentação de sermos independentes. Entreguemos a Deus e aos Estados Unidos os nossos desejos, confiemos cegamente no Paulo Guedes e no Moro, e rezemos.

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