Psiquiatra alerta para risco de suicídio no período de Natal e Ano-Novo

Solidão e sentimento de culpa por não ter atingido metas são causas frequentes

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Foto: Jessé Giotti, BD, 29/6/11/Diário Catarinense

POR CAMILA KOSACHENCO/GAÚCHA ZH

Com a proximidade do fim do ano, é bastante comum que as pessoas parem, olhem para trás e façam um balanço dos dias que passaram. Essa atitude, inofensiva para uns, pode ser fatal para outros. Pesquisa realizada no México apontou os feriados, especialmente Natal e Ano-Novo, como as datas com maior frequência de suicídios.

Apesar de o estudo, publicado em 2016, ter apenas um recorte mexicano, essa tendência também parece ser uma realidade no Brasil, de acordo com o psiquiatra Rafael Moreno de Araújo.

— Na minha visão, parece ter uma maior crise no período. As secretarias regionais já orientam a tentar deixar os leitos de urgência como prioridade — conta o médico.

As hipóteses para esse tipo de comportamento vão muito além de um diagnóstico de doença mental. Solidão e sentimento de culpa por não ter atingido metas são causas frequentes do pensamento suicida.

— A pessoa se sente um peso, um incapaz quando não alcança as metas. Aí, junta com a desesperança, como o pensamento de “o ano que vem não vai ser diferente”, e surge a ideia de morte. Se o indivíduo aproveitar o período para beber, isso só piora — completa.

Portanto, familiares e amigos devem ficar bastante atentos aos sinais que pessoas com ideias suicidas podem dar. Veja alguns indicativos do problema e como agir diante dessas situações:

Boa parte das pessoas emite sinais

Muitas vezes, as pessoas verbalizam esses pensamentos suicidas, logo, não os ignore.

— É comum a pessoa falar que vai se matar ou usar frases como “se isso não acontecer, eu vou me matar” — ilustra o psiquiatra.

Ao ouvir qualquer uma dessas manifestações, familiares e amigos devem buscar ajuda médica, levando a ameaça muito a sério.

— As pessoas riem quando ouvem isso, mas esse é o grande erro, pois a maioria das pessoas consegue se matar na primeira tentativa — alerta Rafael Moreno.

Alterações sutis no humor

É preciso tirar da cabeça a imagem do suicida que está no fundo do poço. Conforme o psiquiatra, as tentativas de tirar a vida ocorrem quando a pessoa está entrando ou saindo do fundo do poço. Insônia, ansiedade, raiva ou euforia também podem ser indícios de que algo não vai bem.

— Os eufóricos tentam tanto quanto os deprimidos — salienta o médico.

Bebida além da conta

Beber mais álcool do que o normal também pode sinalizar algum problema. Nessa ou em todas as situações acima, é fundamental que família e amigos joguem limpo com a pessoa:

— Tem de perguntar o que está acontecendo. As famílias colocam isso como um segredo, negam, ou falam “isso é bobagem”. Tem de ouvir e, reconhecendo o risco, levá-lo ao médico. Não se deve dar conselhos furados.

Conforme Rafael Moreno, quem tem pensamentos suicidas resiste em procurar um médico, contudo, a insistência pode funcionar:

— Em algumas situações, tem que pegar e levar a força. A legislação permite isso quando há risco iminente de autoagressão.

Doenças mentais ou tentativa prévia

Diferentemente do que se pode pensar, a depressão não é o gatilho que mais provoca suicídios. Segundo Rafael Moreno, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e uso de drogas são fatores importantes para desencadear a vontade de tirar a própria vida. Quem já tentou se matar também precisa atenção especial.

— Pais com filho adolescente que percebam que ele está se cortando precisam ficar alertas também — adverte o psiquiatra.

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