Quais os valores que você quer passar para suas filhas?

marcos piangers
Giselle Sauer/Especial
Me perguntaram esses dias: “Quais os valores que você quer passar para suas filhas?”. Veja bem, querer é uma coisa, conseguir é outra. Quero que tenham paciência, mas eu mesmo falho quando grito pela décima vez para que entrem no banho. Quero que sejam educadas, mas não como eu sou com quem corta a minha frente no trânsito. Quero que aprendam o valor da vida em família, mas estou aqui escrevendo este texto enquanto elas jantam juntas na cozinha.
Quero que digam “com licença, por favor e obrigado”, mesmo que eu não diga, às vezes. Quero que entendam o valor das coisas que não podem ser contadas. As melhores coisas da vida não podem ser colocadas em números. Carinho, amor, felicidade, gratidão. Que não devem consumir indiscriminadamente. Que só comprem aquilo que precisam – ou que estejam loucas de vontade, especialmente se for um sorvete.

Que não comparem suas vidas com a vida de outras pessoas. Cada um tem seus problemas e suas sortes. Agradecer pelo que temos, sem desejar aquilo que não temos. Felicidade é desejar aquilo que a gente já tem. Acredito nisso e, quem sabe, seja o valor que estou passando para as meninas. Quando perguntamos para a mais nova o que queria de Natal disse: “Tanto faz! Eu gosto de tudo!”. O maior luxo da mais velha é passar aniversários assistindo filmes no cinema, comendo pipocas e tomando suco.

Talvez a leitura seja um valor. Desde pequenas lemos juntos, histórias de ninar, livros infantis, gibis da Turma da Mônica. A mais velha está lendo a série napolitana da Elena Ferrante. Sempre dissemos que só há um presente que pode ser pedido fora de datas comemorativas: livros. E as duas lêem. E acredito que é um grande valor.

Além disso, o que estou passando? Humildade, talvez. Minhas filhas se vestem com roupas de brechó, usam uniformes escolares de segunda (ou terceira!) mão, nosso apartamento não tem elevador nem salão de festas. Elas gostariam de uma vida mais confortável, presumo. Por vezes me pergunto se estariam mais felizes em uma mansão. Mas na única vez que dormimos em uma mansão e podíamos escolher qualquer um dos oito quartos, acabamos dormindo todos amontoados no mesmo colchão.

Os valores que estou passando para minhas filhas são aqueles que elas acenderam dentro mim. No fundo, a chegada delas despertou em mim meus valores, minha melhor parte. E, quem sabe um dia, o trabalho delas comigo esteja completo.

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