Quer engravidar? Saiba como o estresse pode prejudicar a fertilidade da mulher

Pesquisadores descobriram que o estresse interfere na liberação do hormônio luteinizante (LH), considerado gatilho para a ovulação

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Por Camila Maccari

Se engravidar está nos seus planos, vale ficar atenta ao quão esgotada física e mentalmente você está nos últimos tempos. Altos níveis de estresse podem influenciar na fertilidade e fazer com que o processo de conceber um bebê seja mais demorado. Um estudo conduzido na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston e publicado em agosto no American Journal of Epidemiology mostrou que o estresse age fisiologicamente interferindo na liberação de hormônios importantes para o sistema reprodutivo.

Os pesquisadores usaram dados do Pregnancy Study Online dos Estados Unidos e do Canadá, pesquisa que relaciona estilo de vida e gravidez. Foram acompanhadas 4.769 mulheres, entre 21 e 45 anos, e 1.272 homens, acima de 21, que não tinham histórico de infertilidade e que estavam tentando conceber por mais de seis ciclos menstruais. Após a investigação, por meio do questionário de escala de estresse percebido, foi possível ver que, quanto maior a pontuação de estresse apontada pela mulher, menor era fecundabilidade do casal.

O estudo revelou que o estresse interfere na liberação do hormônio luteinizante (LH), considerado gatilho para a ovulação. Márcio Coslovsky, ginecologista membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, explica que a falta do hormônio LH, que pode fazer com que a mulher não ovule, também tem impacto na fertilidade masculina:

– É o pico de LH que desencadeia a ovulação. Se esse hormônio está bloqueado, a ovulação não se dá, e, sem ovular, também não tem gravidez. Mas, muitas vezes, leva tempo para que a mulher consiga identificar que há algo errado, porque ela continua ovulando, mesmo que de uma forma desregulada. No caso dos homens, esse hormônio influencia na produção de testosterona e vai acarretar uma produção menor de espermatozoide ou a falta de ereção. Vale lembrar que, quando identificado esse problema, é possível repor o hormônio através de medicamentos.

O médico lembra que o estresse prejudica tanto as mulheres que estão tentando engravidar espontaneamente quanto as que recorrem à reprodução assistida:

– Na gravidez in vitro, em que a mulher recebe o óvulo já fecundado, a falta do hormônio luteinizante também é problemática porque altera a receptividade do útero, altera a capacidade de o útero perceber a fertilização como uma coisa boa, o que faz com que seja mais difícil de manter, por exemplo. Mas, é claro, nesses casos todo o processo é acompanhado por uma equipe.

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Para Matheus Roque, mestre em Ginecologia e membro da Sociedade Brasileira em Reprodução Assistida, é importante lembrar que uma vida estressada não quer dizer que você não vá conseguir engravidar:

– São estudos que sugerem, apontam motivos, mas são inúmeras causas que se associam. Nós vivemos em uma sociedade cada vez mais infértil. É sedentarismo, depressão, doenças, álcool, tabagismo, estresse, que acabam influenciando nos hormônios e dificultando o processo. Até outras questões como a quantidade de vezes que um casal faz sexo, por exemplo, acaba entrando nesta conta. Não é que o casal não vá conseguir engravidar, mas vai levar mais tempo, principalmente se não ocorrer uma mudança em estilo de vida.

E esta nem sempre tem como ser radical, por mais estressante que seja a sua rotina. Coslovsky lembra que é impossível se blindar de todas situações estressantes: é o trabalho que cobra demais, são discussões por causa do cenário político atual ou problemas familiares. Ele faz coro a Roque quando diz que, nesses casos, adotar hábitos saudáveis é fundamental para funcionar como um ponto de equilíbrio.

– Se eu estou morrendo de cansaço, estressada, sentindo a minha saúde impactada, tenho que me perguntar o que dá para fazer para melhorar o cenário. Quando é um problema que pode ser resolvido, vai lá e resolve, sem se deixar ficar consumindo por ele. Quando você não tem o que fazer, a não ser encarar, vale apostar em rotinas que aliviem o estresse inerente à vida. A de resultado mais imediato e garantido é a atividade física: pelo menos três vezes na semana apostar em um exercício aeróbico já traz melhora na qualidade de vida e atenua o estresse, por exemplo.

Outra dica do médico é a acupuntura, tradicional ferramenta da medicina oriental que passou a ser aliada de quem busca ficar mais relaxado:

– O que vemos são pacientes que fazem como técnica de relaxamento e de diminuição de ansiedade e estresse. Pode funcionar, assim como funcionariam outras técnicas de relaxamento ou a meditação – sugere Coslovsky. – Mas vale aliar a acupuntura com a atividade física, por exemplo. São táticas que ajudam na liberação de endorfina no organismo, o que melhora o estresse.

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