“Órfãos da Terra”: refugiados sírios encontram segurança para recomeçar em Santa Catarina

Assim como na nova novela das seis, Sírios deixam o país em guerra e se reconstroem no Brasil

Ahmad Mohad, de 40 anos, chegou ao Brasil em 2011 (Foto: Felipe Carneiro)

Nesta terça-feira (2), estreia “Órfãos da Terra”, a nova novela das seis na NSC TV. A trama é protagonizada por Julia Dalavia, que interpreta a síria Laila, e Renato Góes, no personagem do árabe Jamil. Eles se encontram em um campo de refugiados, em Beirute, e fogem da Síria para viver um grande amor em terras brasileiras.

Embora a história central tenha um tom típico da teledramaturgia, o drama dos refugiados – que vivem uma situação comum entre sírios que fugiram do conflito – será o ponto alto da obra. Em guerra desde 2011, o país árabe enfrenta conflitos civis que ameaçam destruir o território, e o Brasil é um dos poucos países no mundo que facilita o abrigo de quem foge desse cenário.

Foi essa segurança que Ahmad Mohad, de 40 anos, procurou quando veio para Santa Catarina logo no início da guerra, no final de 2011. Prevendo que a situação iria se agravar no conflito pela permanência do atual presidente Bashar al-Assad, ele optou se estabelecer economicamente em outro país. Mesmo sem precisar de documentação de refugiado, ele envia dinheiro aos familiares que ficaram para lutar no exército sírio.

Assim como ele, Mouayad Shmoon, de 25 anos, saiu da Síria pouco tempo depois, em 2012, também buscando encontrar formas de sustentar quem ficou na guerra. Entretanto, o jovem árabe precisou de abrigo como refugiado e deixou no país familiares que não aceitam o governo de Bashar al-Assad, num conflito que já dura oito anos.

Luta por liberdade e democracia

Cada um deles conta uma história diferente de lutas por liberdade e democracia. Para Ahmad Mohad, a ditadura de al-Assad é melhor opção ao “governo extremista que quer conquistar o poder” e apoia o irmão que luta no exército local. Já Mouayad Shmoon tem esperanças de um governo permissivo, já que o atual presidente “não aceita participação do povo nas decisões governamentais”, mas também discorda da opção “extremista” e busca meios de tirar a família do território em guerra, sem precisar apoiar exércitos nessa batalha.

Mesmo que politicamente os conterrâneos discordem, existem entre eles alguns pontos em comum, como a perda de familiares na guerra e a certeza de onde querem viver: “eu não saio mais do Brasil” — afirmam igualmente.

— Casei com uma brasileira e já temos um filho, que tem dois anos. O nome dele é Hassan, igual ao do meu pai — conta com orgulho Ahmad Mohad.

Mouayad Shmoon ainda não constituiu família no solo brasileiro, mas a expectativa é grande.

— Tem muita mulher bonita em Florianópolis — comenta aos risos.

Mas a principal semelhança entre esses dois é a relação com a culinária, que já compartilhavam quando ainda moravam no país árabe. Um com experiência de mais de 30 anos em restaurantes da família e o outro com uma paixão que começou há 10 anos no primeiro emprego.

Pratos de Ahmad Mohad que valorizam ingredientes brasileiros (Foto: Felipe Carneiro)

“Nossa comida é sagrada” – afirmam os dois sírios

Ahmad Mohad chegou ao Brasil e logo percebeu que os moradores daqui sabiam apreciar boa gastronomia. Após se estabelecer na Capital catarinense, com apoio da comunidade árabe que já estava formada por aqui, abriu um restaurante nas proximidades dos principais órgãos jurídicos da cidade e formou uma importante clientela de desembargadores e juízes.

— São pessoas que viajam muito e já conheciam a gastronomia árabe, que é tão requintada quanto a italiana. Então souberam apreciar o que temos de melhor, nossos temperos e a boa comida — afirma Mohad, carregando o sotaque.

Com ares de boutique, o restaurante do chef sírio conquista pelo conforto e pela qualidade dos pratos que valorizam, principalmente, os legumes e os vegetais que são abundantes no Brasil.

— Vocês têm muita comida por aqui e nem sempre sabem aproveitar. Nós passamos por muitas guerras historicamente, então toda comida que conseguimos ter é sagrada. Nossos ancestrais passaram muita necessidade e precisavam aproveitar tudo que tinham para se alimentar. Aqui não, então vocês desperdiçam. Mas eu ensino todo mundo que vem aqui a comer sem desperdiçar nada — conta Mohad, que logo passou uma receita para a Versar (e que vamos ensinar o passo a passo abaixo).

As combinações de receitas típicas dos países árabes, como o Falafel, que são bolinhos de grão de bico temperados, e a Kafta no espeto, são o carro chefe da casa, mas ressaltam um toque diferente do proprietário.

— Você pode comer o mesmo prato, até um ovo frito, aqui e em outro restaurante árabe, mas nunca vai ser igual. Porque cada um de nós coloca o seu ar na receita, é feito de um jeito único — enfatiza Mohad, numa verdade que é compreendida e repetida por Mouayad Shmoon.

O jovem de 25 anos trouxe uma experiência em restaurantes de Kebab — prato típico árabe — e garante que nunca uma receita é igual a de outro cozinheiro.

Mouayad Shmoon, de 25 anos, ganhou o apelido de Faruk depois que veio para o Brasil (Foto: Felipe Carneiro)

— O aroma é de cada um. Eu trabalhava numa rua, em Damasco, que tinham restaurantes de Kebab um do lado do outro, mas nenhum era igual — afirmou Shmoon, que ficou conhecido em Florianópolis pelo apelido de Faruk.

Quando chegou ao Brasil, Faruk encontrou refugio e emprego numa rua do centro de São Paulo, como vendedor de jaquetas. Por lá foi convidado para participar de um curta-metragem gravado na capital paulista, quando ganhou o apelido. Mas logo que pode, voltou a trabalhar com gastronomia, com um convite para morar na cidade catarinense.

— Eu trabalho com o que gosto e eu coloco o meu melhor em cada prato. O que eu mais amo é ouvir: Faruk, esse é o melhor Falafel que já comi. E eu vou fazer ainda melhor, porque a comida tem que ser muito boa — completa, num português ainda precário.

Os doces de Faruk são preparados com ingredientes típicos trazidos da Síria pelo pai, que chegou recentemente ao Brasil (Foto: Felipe Carneiro)

Mesmo sem lembrar palavras no novo idioma para descrever o que tem de diferente na sua cozinha, Faruk deixou claro, assim como Mohad, que “amor” é o principal ingrediente.

— Agora tenho quase tudo, [sou] muito feliz aqui. Só falta trazer a minha mãe para o Brasil — finaliza Faruk.

Receita: Mohad ensina prato que leva berinjela e Grão de Bico

Ingredientes:

  • 1 Beringela
  • 50g Grão de bico cozido
  • 4 tomates italianos bem vermelho
  • Cebola roxa
  • 5 dentes de alho
  • Azeite de oliva

Modo de fazer:

Preencha o fundo da panela com azeite de oliva e acrescente cebola, em corte Julienne, para refogar. Após, acrescentar a berinjela, cortada em rodelas pequenas, e mexer durante 10 minutos. Depois acrescenta-se tomate picado e o grão de bico cozido, em fogo baixo por 25 minutos, mexendo aos poucos. Finaliza com o dente de alho cortado em quatro partes e sirva com pão sírio. 

 

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