“Não existe uma só forma de amar”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins

Autora de 12 livros, a psicanalista Regina Navarro Lins fala sobre como os relacionamentos amorosos estão mais livres e saudáveis

Psicanalista fala sobre seu novo livro. Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS

“O seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele é”. O verso de Seu Amor, entoado pelos Doces Bárbaros em 1976, parecia antecipar o futuro dos relacionamentos amorosos. Na real, quando Caetano, Gil, Gal e Bethânia lançaram essa música, o mundo já estava mudando. Com a sociedade em ebulição, novas formas de se relacionar surgiam. A popularização da pílula anticoncepcional na década de 1960, a emancipação feminina e muitas outras evoluções iniciaram um novo capítulo na história. Décadas depois, nos dias de hoje, estar junto, casado ou namorando não significa dividir absolutamente tudo.

Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de Novas Formas de Amar e outros 11 títulos, palavras como controle e dependência emocional devem ficar no passado. O amor romântico, aquele repleto de expectativas e ciúmes, está caindo por terra. Regina, que apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews, e atua como consultora no Amor & Sexo, da TV Globo, afirma que o respeito à individualidade e a libertação de antigos paradigmas vai guiar os novos relacionamentos. Em conversa exclusiva com a Versar, ela explica melhor como isso vai funcionar.

Seu livro questiona bastante o amor romântico. O que seria esse conceito?

O amor romântico começou no século 12, a partir do amor cortês. Esse tipo de amor veio caminhando pela história, mas não podia fazer parte do casamento de jeito nenhum. Casamento era considerado uma coisa muito séria para entrar o amor. Só no século 19, ele passou a ser uma possibilidade no casamento, mas entrou para valer a partir de 1940. O século 20 foi o que valorizou mais o amor. As pessoas passaram a se casar regidas pelo amor romântico.

E qual é a sua crítica a ele?

Em primeiro lugar, o amor é uma construção social. A cada período da história ele se apresenta de uma forma. O amor romântico é calcado na idealização: você conhece uma pessoa e atribui a ela características (de personalidade) que ela não possui. Depois, você cobra dela que se encaixe naquilo que você imaginou. E têm outras características que são muito prejudiciais. O amor romântico prega a ideia de fusão – os dois vão se transformar num só –, um vai satisfazer todas as necessidades do outro, nada faz sentido se o outro não estiver presente, prega também que quem ama não tem mais desejo por mais ninguém. E isso gera muito sofrimento, porque as pessoas acreditam nisso e, se descobrem que o parceiro transou com mais alguém, acham que não são mais amadas. Não critico mandar flores, jantar à luz de velas. Isso não tem problema. No amor romântico não existe uma individualidade.

Quais são as vantagens da superação desse conceito?

Ao sair de cena, o amor romântico leva junto com ele uma característica básica, que é a exigência de exclusividade. É por isso que estão começando a surgir novas formas de amar – poliamor, amor a três, relações livres. A grande vantagem do momento que a gente vive é cada um poder escolher sua forma de viver. Os modelos tradicionais não estão dando respostas satisfatórias. Acredito que daqui a algum tempo – 10, 20 ou 30 anos – menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois e mais gente vai optar por relações livres, múltiplas. Já dá para perceber como vêm crescendo esses movimentos, como o poliamor. Nós estamos caminhando para uma profunda mudança na forma de se viver o amor e a sexualidade.

Como você percebeu essa mudança?

Escrevi Novas Formas de Amar, porque comecei a receber, de cinco anos para cá, casais no consultório com um conflito que em 45 anos de clínica nunca tinha acontecido. As mensagens recebidas, por conta de trabalhar na TV, também traziam a mesma questão no casal: uma das partes propõe a abertura da relação e a outra se desespera. Isso começou a acontecer com muita frequência. Atendi pessoas casadas há três, 15 ou 40 anos com esse conflito. Eles querem a liberdade de se relacionar com outras pessoas ou uma prática sexual diferente, como sexo a três, por exemplo. Então escrevi por acreditar que está na hora das pessoas começarem a perceber que não existe uma só forma de amar.

Quais eram as dificuldades destes casais?

Era aceitar que quem ama pode desejar ver ou saber que o parceiro (a) transa fora do namoro ou casamento. Vem aquela ideia: “Se ele me amasse de verdade, não iria propor isso”. Quem está regido pelo amor romântico acredita que o outro não deve ter olhos para mais ninguém. Atendi um caso de um rapaz de 42 anos, casado há 15, com três filhos, apaixonado pela mulher e ela por ele. Eles faziam sexo todos os dias. Conversando com ela, ele propôs abrirem a relação e ela concordou. Dois meses depois ele descobriu que ela estava tendo um caso. Ele ficou desesperado. Foi aí que me procurou e disse que não queria sentir ciúme. Acreditava que a melhor forma de relacionamento é realmente ter liberdade.

Você afirma que as mudanças começaram nos anos 1960. Não acha que esse tipo de relação sempre existiu, mas não se falava disso?

Tudo sempre existiu. Nos anos 1950, se alguém dissesse que daqui algumas décadas as moças não iam mais casar virgens, as pessoas iam achar que era uma loucura. A virgindade era um problema sério se fosse perdida antes de casar. Da mesma forma era a separação, considerada uma tragédia familiar. Estamos em pleno processo de mudança das mentalidades, que é lento e gradual. Mentalidade diz respeito aos anseios, comportamento, crenças de cada época ou lugar. Quando a gente aponta a tendência, aponta o que vai predominar. Acho que daqui a alguns anos menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois e mais gente vai optar por ter relações mais livres. É claro que vão continuar existindo casais que mantêm relações ditas monogâmicas, mas não vai ser a maioria como é hoje.

Você acha que a sociedade vai ser mais tolerante?

Acho que a sociedade vai aceitar isso naturalmente como hoje aceita a separação de um casal. É uma coisa que vai mudando aos poucos.

Os relacionamentos estão mais saudáveis hoje?

Muito mais. Acho que as pessoas são mais espontâneas hoje. O problema é que elas sempre tiveram que se enquadrar em modelos, quem não se enquadrasse era discriminado, não era aceito. As escolhas individuais são mais fáceis hoje. Ainda não estamos no ideal, mas estamos bem melhor. Não só as relações amorosas estão mais saudáveis, mas outras formas de relacionamento também. O homem com filhos é um bom exemplo. Antes o pai era apenas o provedor, o que dava as ordens. Hoje dá mamadeira, leva para a escola, brinca com os filhos. Socialmente, também vemos mudanças. Muitos já podem dividir suas questões existenciais com os amigos, o que não acontecia. O que importava em as aparências.

O machismo vai acabar um dia?

Estamos caminhando para isso. A mentalidade patriarcal, de dominação, se instituiu há cinco mil anos, quando se descobriu que o homem participava da procriação e surgiu a propriedade privada. A mulher foi aprisionada, porque o homem queria ter certeza da paternidade para não correr o risco de deixar a herança para o filho de outro. A humanidade foi dividida: homem para um lado, mulheres para outro. E se criou um ideal masculino de força, sucesso, poder, coragem, ousadia, nunca falhar. O homem, para ser valorizado, tinha que corresponder a esse ideal. O ideal feminino era a mulher ser sempre frágil, obediente, submissa. Mas a fronteira entre masculino e feminino está se dissolvendo, o que é pré-condição para uma sociedade de parceria e não mais de dominação. Não há mais nada que interesse a um homem e não interesse à mulher. E isso é importante, porque todos nós – homens e mulheres – somos fortes e fracos, corajosos e medrosos, ativos e passivos, etc – dependendo apenas das circunstâncias de das características de personalidade de cada um. Os homens estão percebendo que o machismo também os prejudica. Eles estão vendo que corresponder a esse ideal é exaustivo. Acredito que a saída seja homens e mulheres se aliarem, darem as mãos, para se libertar da mentalidade patriarcal, que oprime a ambos os sexos.

Como ter um relacionamento feliz?

Penso que uma relação a dois só tem chance de ser realmente satisfatória se houver total respeito ao outro, ao seu jeito de ser, ao seu jeito de pensar, as suas escolhas. Se as pessoas tiverem amigos em separado, programas independentes, e, principalmente, não haver controle algum um do outro. Cada vez mais as pessoas estão percebendo que preservar a própria individualidade é fundamental. Todos, homens e mulheres, devem refletir sobre as crenças e valores aprendidos para se livrar do moralismo e dos preconceitos, se quiserem viver melhor. Mas para viver bem é preciso ter coragem.

Novas Formas de Amar

Regina Navarro Lins, Editora Planeta do Brasil, 272 páginas
R$ 40 (preço médio)

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