Temos um relacionamento há 15 anos. Existe algo mais démodé que isso?

Talvez, usar a palavra démodé.

Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Dia 12 de junho não é apenas o dia dos namorados, mas também aniversário da primeira vez que a gente ficou. Eu e ela solteiros. Eu e ela trabalhando na mesma empresa. Eu e ela jornalistas. Quem é jornalista sabe: são tantas horas extras e horários malucos que é difícil a gente se relacionar com outra pessoa que não seja alguém da mesma empresa. É o que chamamos de “reprodução em cativeiro”. Não tínhamos o que fazer naquele dia dos namorados. Saímos para beber cerveja barata. Não deu três meses estávamos morando juntos. Fez quinze anos na última terça-feira.

Ser casado há quinze anos nos constrange um pouco porque escancara a nossa idade, mas pior, nos coloca em um seleto grupo de casais que perduram. Nossos amigos todos começam e acabam relacionamentos. Não posso negar o ar de modernidade que vejo nisso. Parecem tão contemporâneos, trocar de parceiros de três em três meses, usar aplicativos de relacionamentos, ter relacionamentos abertos, estar feliz com a solteirice.

Admiramos, é claro.

Gostamos de ver pessoas felizes.

Mas com a gente não funciona.

O que eu posso fazer? Nunca conheci uma pessoa como a Ana. Engraçada, inteligente, de astral inabalável e uma risada deliciosa. Tivemos duas filhas lindas, ambas absorveram qualidades notáveis da Ana. Alegria, generosidade, uma ternura que me derrete. Tivemos tantos altos e baixos, quase nos separamos uma vez. Seria a coisa mais triste da minha vida. Procuraria a Ana em todas as outras mulheres do mundo. Não teria com quem conversar sobre nossas piadas internas. Teria que me adaptar a esse mundo aí, que existe do outro lado das paredes do nosso apartamento orgulhosamente simplérrimo. Como já disse, não somos modernos. Temos um relacionamento há quinze anos. Existe algo mais démodé que isso? Talvez, usar a palavra démodé.

Queremos conhecer a Grécia juntos. Ver a Aurora Boreal. Queremos ver nossas filhas crescerem. Me embarga a escrita imaginar elas vivendo suas próprias vidas sozinhas. Sem eu e a Ana cortando suas unhas, tirando a pequena do banho, ajudando a mais velha a estudar formação celular para a prova de biologia. Um dia seremos somente eu e ela de novo, cabelos brancos e vinhos tintos. De vez em quando um amigo mais antigo nos olha admirado. Pergunta: “Caramba, faz quanto tempo que vocês estão juntos?”.

Não o bastante.

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