Consultora do “Encontro com Fátima Bernardes” fala sobre relacionamentos sustentáveis

A partir de sua experiência clínica e do relato de casos que acompanhou, Lígia Guerra ajuda a identificar a origem e a natureza dos conflitos entre casais

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A psicanalista Lígia Guerra, consultora de relacionamentos do programa Encontro com Fátima Bernardes, lançou no ano passado o livro Amor Sustentável. Nele, ela se debruça sobre vários conflitos que prejudicam o dia a dia dos casais e são os principais motivos da infelicidade nos relacionamentos. A partir de sua experiência clínica e do relato de casos que acompanhou, Lígia ajuda a identificar a origem e a natureza desses conflitos e mostra o que é possível fazer para resgatar a harmonia, a cumplicidade e a alegria da relação. Nesta entrevista, Lígia fala sobre ter relacionamentos saudáveis. Confira:

No livro, você fala sobre relacionamentos sustentáveis. Qual seria a palavra-chave para que uma relação seja sustentável?

Interesse. Quando o desinteresse entra pela porta da frente, o amor foge pela porta dos fundos.

Também se percebe em sua escrita que o primeiro passo para ter um relacionamento sustentável com outra pessoa e ter uma boa relação consigo mesmo. O autoamor, a autoestima, parecem ser muito importantes nesta busca. É isso mesmo?

Sem dúvida! Se eu não me cuido, não tenho carinho por mim mesmo e fujo das minhas fragilidades por vergonha, também não terei condições de amar o meu parceiro que também é repleto de incoerências, medos e ansiedades. Nós não podemos ensinar o caminho para uma estrada que não sabemos onde fica. Quanto mais uma pessoa desenvolve uma autoestima saudável, melhores serão todas as suas relações e isso se potencializa ainda mais na vida a dois.

É possível ter um relacionamento feliz tendo autoestima baixa?

Infelizmente, não. Quem tem baixa autoestima desenvolve dependência emocional pelo parceiro. Devido a sua falta de amor-próprio, não se sente merecedor do amor de uma outra pessoa. No lugar da troca afetiva, entra a necessidade da aprovação do parceiro e, com isso, a pessoa que inicialmente parecia muito interessante torna-se submissa e despersonalizada e normalmente abandonada. Sem amor próprio, não é possível amar e se fazer amar. É ela que alimenta a mútua admiração.

Sua experiência atendendo mostra que é possível crescer, evoluir juntos e, assim, conquistar um relacionamento sustentável?

O que percebo é que quando um dos parceiros é saudável emocionalmente ou conquista essa benefício no seu tratamento, ele somará forças com a pessoa amada. Procurará expor caminhos para que ambos cresçam juntos. Estimulará o amado a também buscar ajuda. Será seu parceiro nas suas travessias de crescimento psíquico, intelectual, profissional e material. Do mesmo modo, se uma das partes se torna saudável e a outra continua insegura, ciumenta, sabotadora ou egoísta e não se dispõe a fazer um movimento de crescimento, dificilmente eles manterão um bom relacionamento. O amor sustentável é adubado a quatro mãos!

Quais são os principais problemas que percebe entre os casais atuais?

A manutenção da relação. Estamos no momento do descarte material e afetivo, ou seja, muitos tratam o parceiro como um carro novo. Interesso-me enquanto ele (a) ainda não é “meu”, enquanto ainda não conquistei, mas diante dom menor problema, eu troco. Quem vive assim não tem necessariamente um problema na relação, é mais provável que tenha um vazio existencial pessoal, através do qual tentará responder as suas próprias frustrações, responsabilizando o parceiro pela sua infelicidade. Falta-lhe o autoconhecimento e a capacidade do cultivo. Justamente devido a isso as pessoas têm se tornado cada vez menos competentes e cada vez mais infelizes diante dos seus laços. Uma sociedade que descarta pessoas e que não sabe lidar com as frustrações cotidianas torna-se estéril.

Que dicas daria para um casal que está enfrentando uma crise?

Honestidade diante daquilo que sentimos e percebemos em nós mesmos, no companheiro e nessa troca diária. A boa comunicação, sem preguiça e com interesse genuíno, estreita e fortifica laços. Os namorados, no começo da relação, dialogam muito, pois querem se conhecer, saber do outro. Interessam-se pelos seus sonhos. É importantíssimo que esse olhar de atenção seja preservado. É fundamental fazer a diferença positiva na vida do parceiro. Incentivá-lo a ser ele mesmo ao nosso lado e sentir-se feliz por isso! Caso contrário, ambos serão personagens representando papéis, vivendo na superficialidade do convívio. Casamento precisa ser porto seguro, conversa boa, a crítica bem colocada que faz crescer, o reconhecimento daquilo de maravilhoso que o outro nem sempre consegue identificar sozinho em si mesmo. Quando o lar é o melhor lugar do mundo, somos capazes de enfrentar os temporais que a vida nos traz e ainda sairmos mais fortes das situações. Quando esse enfrentamento conta com uma boa companhia, tudo se torna muito melhor e significativo!

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