Amazônia, parte 2: Não precisamos de religião para ser uma pessoa boa

Religião atende, basicamente, a uma necessidade de conforto, de busca por um sentido diante da finitude da vida. Legítimo, mas há outras maneiras de preencher vazios existenciais

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Aconteceu no Rio de Janeiro. Meu namorado e eu chamamos um táxi. A corrida deu R$ 36. Na hora de pagarmos, o motorista nos surpreendeu: ele disse que havia alcançado uma graça e, em retribuição, não estava cobrando de nenhum passageiro aquele dia.
Eis uma promessa razoável. Por que fazer sacrifícios, como subir uma escadaria de joelhos? Antes, prometer visitar internos em um hospital, fazer as pazes com um parente, trabalhar para os outros sem cobrar. Há muitas maneiras de ser grato, de “pagar” de forma positiva, e não dramática.

Tive formação católica, mas, ao entrar na adolescência, passei a questionar conceitos como pecado, culpa e vida eterna, essa subjugação que mais me afastava do que aproximava do sublime. Acredito que não precisamos de religião para ser uma pessoa boa, justa, amorosa e solidária – ateus podem ser tudo isso. Religião atende, basicamente, a uma necessidade de conforto, de busca por um sentido diante da finitude da vida. Legítimo, mas há outras maneiras de preencher vazios existenciais: através do amor, da arte, de atitudes mundanas. Coisas que também despertam a fé e a humildade sem precisar recorrer ao sobrenatural. No entanto, continuo em busca do sublime.

Estava com um pequeno grupo viajando de barco pelo Rio Negro, na Amazônia. Depois do jantar, saímos em dois barcos menores para fazer a focagem de jacarés acompanhados de um guia local, o brilhante Samuel, que deveria estar dando palestras na ONU sobre consciência ambiental. Navegávamos pela noite escura, até que um dos barcos sofreu pane no motor. Ok, o outro barco poderia rebocá-lo, mas aquela súbita pausa de um motor inspirou o desligamento voluntário do outro. Por um tempo, mantivemos ambos os barcos à deriva. Não se enxergava nada, apenas a sombra distante da floresta. Ficamos todos quietos. Então olhamos para cima e lá estava ele: meu Deus do céu.

Fui menina de cidade, não tive o privilégio do céu do campo. Minha primeira experiência de encantamento sideral se deu no Planetário de Porto Alegre, aos 12 anos. Décadas depois, contemplei noites belas no deserto do Saara e no do Atacama, mas o que vimos no céu amazônico foi único. A incrível quantidade de estrelas cadentes, seu reflexo na imensidão da água escura, a profundidade do silêncio, o compartilhamento do indizível: a galáxia estampada por milhões de pontinhos luminosos numa noite quente em que não se sabia se era terça, se era quinta, se era sábado e que hora marcavam os relógios que ninguém usava – o tempo não existe na floresta, só a eternidade.

Ali confirmei que a natureza é minha igreja e que Todo Poderoso, mesmo, é este universo deslumbrante que também preenche a vida de sentido.

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