“A gente vê como a sociedade trata o outro baseado na cor da pele”, diz ator Renato Goés

Renato interpreta Marcelo D2 no filme "Legalize Já", que estreia essa semana

Renato Góes e Marcelo D2
Renato Góes e Marcelo D2 durante as gravações (Foto: Divulgação)

Andrey Lehnemann/Especial

Estreia nesta quinta-feira, dia 18, o filme Legalize Já, que conta a história do início da banda Planet Hemp. Nesta entrevista, Renato Goés, que interpreta Marcelo D2, fala sobre a preparação para o papel:

Criar personagens que ainda permanecem em nossa cultura popular é um desafio? Como foi desenvolver o Marcelo antes dele se tornar o D2? Você já conhecia a história dele?

Foi muito difícil. Eu tive o Marcelo próximo todo o tempo, mas precisei separar o Marcelo que dialogava comigo e me ajudava no dia a dia a entendê-lo agora com o que precisa construir, o de 25 anos atrás. Aquele Marcelo de cabeça baixa, sem postura, que não entendia a sua voz. O corpo e a mente dele eram outros, o passado e o presente são muito diferentes. Aquele Marcelo Peixoto, que não sabia de sua própria voz e que ninguém conhecia realmente, é o oposto do D2 de hoje, que sabe o que quer, que tem algo a dizer e sabe como. O Marcelo foi muito honesto durante o filme, ele deu acesso a tudo, o contexto da época, o ambiente em que eles estavam inseridos e como se pensava na época. E com o trabalho de pesquisa, com muitas gravações, vídeos e imagens, a gente conseguiu unir tudo, acredito.

A cena que mais pediu de você como ator foi a que você descobre o destino do Skunk? Existe uma cena que você considere sua favorita?

Sim. Eu tenho uma cena favorita, que é resultado de uma série de coisas. Vem da parceria com o Ícaro, com o Marcelo e a banda que ficou no estúdio comigo por oito meses ouvindo Planet Hemp, além, claro, do Johnny, que acreditou no trabalho. É um dos primeiros ensaios da banda, acho que o primeiro, quando a gente coloca o refrão do Phunky Buddha, um canta e o outro complementa. Foi tudo no improviso. Bem marcante.

Como você enxerga o mundo que Marcelo e Skunk estão inseridos no filme? Um lugar que a violência está sugestiva em vez de exposta?

Cara, eu acho que é exatamente isso. O filme não quer pegar dois moleques de classe média vivendo nas praias do Rio de Janeiro. Ele propõe a fatia de três anos da vida de dois moleques que vivem a repressão do dia a dia. Tem uma cena que o Marcelo fala que não se acha preto, mas a sociedade o vê como um. E a gente vê como a sociedade trata o outro baseado na cor da pele. O mau trato. E nada mudou. Costumo dizer que em 20 anos, a única coisa que mudou foi a vontade do povo em mudar, pois, de fato, de fato, não mudou nada. Um filme como esse permanece muito atual ainda. Os moleques da periferia continuam passando pela mesma coisa, vivendo na margem, como Skunk e Marcelo. Eles só enxergavam o mundo de maneira diferente, naquela época. O Marcelo precisava de um empurrão. O Skunk sabia viver, apesar da doença. Ele ensinou o Marcelo a aproveitar mais o tempo dele. Foi um anjo na vida dele. Vítimas de uma mesma sociedade, mas com cabeças diferentes. Ao menos, naquela época.