Única no Brasil, revista catarinense retrata a arte circense feminina

A publicação, pioneira na produção mundial, se propõe registrar e refletir sobre o trabalho realizado por mulheres palhaças no Brasil e no mundo

A Revista Palhaçaria foi idealizada e é organizada pela Palhaça Barrica (Foto: Angélica Lüersen)

A Revista Palhaçaria é produzida em Chapecó e é a única no Brasil, e pioneira no mundo todo, que retrata a exclusivamente a arte circense feminina, com o objetivo de registrar, refletir, divulgar e contribuir para a qualificação do trabalho realizado por mulheres palhaças no Brasil e no mundo.

O projeto é assinado por Michelle Silveira da Silva, conhecida no Oeste catarinense, e que se apresenta com o nome de Palhaça Barrica. Visionária, a atriz, que foi a primeira cômica da cidade, percebeu o tamanho da conquista das mulheres no cenário da palhaçaria e decidiu fazer mais por esse espaço.

— Hoje existem muitas mulheres palhaças atuando nos palcos, hospitais, ruas, produzindo encontros e festivais, pesquisando a comicidade feminina, atuando em zonas de confronto, guerras, aldeias e espaços diferenciados. Mas, tradicionalmente, o ofício da palhaçaria era desempenhado por homens, palhaços. Então a revista propõe um espaço de visibilidade às mulheres palhaças, espaço esse que lhes foi negligenciado por muito tempo — reflete Michelle.

Foto: Angélica Lüersen

A revista teve a primeira edição publicada em 2012 e foi se desenvolvendo no decorrer do tempo. A publicação reúne textos produzidos apenas por mulheres, do mundo todo, e reforça a importância da conquista das palhaças.

—Nós mulheres palhaças existimos, somos profissionais, desenvolvemos cada uma em seus espaços e comunidades, projetos lindíssimos, dignos de serem registrados e compartilhados, pois certamente servirão de inspiração para muitas pessoas. A ideia da Revista Palhaçaria Feminina se relaciona intimamente com o feminismo quando coloca as mulheres como protagonistas de sua própria história e apresenta ao mundo a história das mulheres contada por elas mesmas — enfatiza a palhaça Barrica.

A quarta edição da revista, publicada este mês, reuniu produções brasileiras, de Portugal e do México. A revista é bilíngue e terá sua versão em inglês disponibilizada pela internet, para que pessoas do mundo todo possam ter acesso ao conteúdo.

— A cada nova ação com a revista, criam-se oportunidades para as mulheres se unirem “em busca de algo mais lindo, como o mar, que não conhece fronteiras”, como diz a palhaça Darina Roblez, do México. Que possamos cada vez mais nos unir, nos fortalecer e mostrar ao mundo o quanto temos para compartilhar, e quanto tempo o mundo perdeu não se interessando por nossas histórias.

Foto: Angélica Lüersen

Cenário da palhaçaria feminina no Brasil

Santa Catarina é referencia quando o assunto é pesquisa da arte circense feminina e é o único estado que oferece uma rede de encontros e entusiasmo da profissão, a Rede Catarina de Palhaçasalém da Rede Nacional de Mulheres Palhaças. O Brasil realiza 14 dos 24 eventos voltados para a palhaçaria feminina no mundo, segundo a pesquisadora Daiani Brum.

Ainda assim, Barrica faz um apelo por mais incentivo no país.

— A arte em si está passando por um momento bem obscuro no Brasil, acredito que a arte circense, feminina ou não, está carente de mais leis de incentivo, editais culturais e políticas públicas eficazes. No caso dessa revista, tivemos na sua 3ª Edição recursos através do Prêmio Carequinha da FUNARTE, que atualmente não tem mais recursos para projetos de pesquisa. Na 4ª edição tivemos recursos de um edital municipal de cultura que tem contribuído e muito para o desenvolvimento cultural da cidade de Chapecó. Mas num panorama geral, a arte carece de mais atenção, respeito e investimento, pois movimenta muitos recursos no Brasil, gera renda, desenvolvimento cultural, financeiro, turístico e sem falar no valor que traz com o desenvolvimento humano de um povo.

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