“Tem vezes que, enquanto estou vivendo o momento, já estou sentindo saudade”

Foto: Pixabay

Acordei com as crianças na cama, era domingo e minha esposa estava viajando, peguei um livro pra ler no sol. A mais velha acordou e veio sentar comigo no sofá. Conversamos um pouco, ela sente falta de falar comigo sozinha, sem a irmã por perto. Eu sinto falta de conversar só com ela também. Sinto falta de quando ela tinha sete anos e íamos no shopping tomar suco e assistir a qualquer filme no cinema. Queríamos mesmo era comer pipoca. Invariavelmente, acabávamos saindo antes do filme terminar.

O tempo me separa da minha filha adolescente. Ela está cada vez mais envolvida nos estudos, nas aulas extras, nos jogos e nas séries que aprendeu a amar. Ela não tem nem quinze anos e já sinto que está indo embora, aos poucos.

Preparamos o café da manhã, ovos mexidos, torradas com mel, iogurte natural e granola. A mais nova acordou com o brado habitual: “Papai!”. A mais velha lamentou o fim do nosso tempo exclusivo. Fui até a cama, a pequena se pendurou nas minhas costas. “Uber!”, ela diz, quando sou sua locomoção. A viagem até a cozinha durou quatro segundos e custou três beijos na bochecha.

Coloquei pra tocar uma música calma no celular. Combinamos que cada um poderia escolher uma música. Eu sempre escolho Billie Holiday. A mais velha sugere bandas francesas de adolescentes que fazem música no quarto. A mais nova quer ouvir O Sol do Vitor Kley. Comemos juntos cantando “quando você vem tudo fica bem mais tranquilo”, imaginando se o Vitor Kley imaginava que essa composição faria tanto sucesso.

Conversamos demoradamente, sobre a escola, os colegas, as coisas engraçadas que aconteceram nos últimos dias. Já era quase onze da manhã quando lavamos a louça, ouvindo um disco ao vivo do Caetano Veloso. A casa ficou em silêncio de novo, cada uma fazendo a tarefa escolar, enquanto eu tentava novamente ler o livro, interrompido por eventuais “papai, me ajuda?”.

Fomos até o supermercado. Compramos arroz e brócolis. Expliquei para a pequena que ela faria seu primeiro almoço. Ficou bom. De tarde fomos tomar sorvete e ver o pôr do sol. No bar da esquina tocava blues. No entardecer os jovens começavam a flertar. Perguntei quando minha filha iria finalmente descolar um crush. Ela me empurrou, encabulada. Voltamos pra casa a pé. Começava a esfriar.

Elas tomaram banho e cada uma pegou um livro. Lemos juntos, com toalhas protegendo os travesseiros dos nossos cabelos molhados. A mais nova dormiu primeiro, eu e a mais velha ainda ficamos conversando até tarde. “Baiati”, dissemos, que é como dizemos “boa noite”, desde que a mais nova tinha dois anos e não sabia falar direito.

A vida é um amontoado de instantes, um depois do outro, e teremos cada vez menos instantes, daqui pra frente. Alguém já disse que no final importa menos quantos dias teve sua vida, mas quanta vida teve nos seus dias. Tem vezes que, enquanto estou vivendo o momento, já estou sentindo saudade.

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