A sequência de camarão e sua origem

Foto: Divulgação

No início da década de 1950, quem quisesse saborear um bom caldo de camarão na Lagoa da Conceição tinha também que ter espírito aventureiro. Para começar a aventura, precisava enfrentar o temível morro das sete voltas, ainda não pavimentado, que, além de íngreme, era todo esburacado e sem a mínima proteção. Quando chovia, havia o risco de não se poder retornar.

Do alto do morro, à noite, avistava-se uma fileira de luzes, mas não era luz elétrica, que ainda não havia, mas a iluminação das pombocas (pequenas lamparinas a querosene) dos pescadores de camarões e siris. Completada a travessia, quase uma viagem, os comensais – que iam para lá sempre em grupos – compravam os camarões, recém-saídos das águas, dos próprios pescadores. Adquirido o crustáceo, procurava-se então uma das vendas de secos e molhados existentes por lá, que podia ser do seu Andrino, do Isac ou do Isauro.

Quando passava das nove da noite, e as vendas já estavam fechadas, o jeito era acordar um dos proprietários, que, meio sonolento, abria a porta e encarregava-se de preparar o caldo na hora. Os fregueses eram acomodados num pequeno “puxado”, e ali, entre goles de cerveja meio quente e pinga de alambique (a caipirinha ainda não entrara em moda), passavam a aguardar o resultado final.

Devido a longa espera, surgiu a sequência ou o rodízio de camarão. Primeiro vinha o camarão frito, depois ao bafo (quando um irresistível aroma invadia o ambiente) e, finalmente, quando os apetites já estavam aguçados, chegava o caldo propriamente dito, servido em travessas fumegantes. O acompanhamento era apenas farinha. Quem quisesse pirão, que o preparasse.

O caldo de camarão é preparado num panelão com os mais variados tipos de tempero: salsa, cebolinha verde, alfavaca (fundamental!), coentro, orégano, louro, cebola, alho e tomate. O “legítimo”caldo começa – como nos velhos tempos – a ser preparado no momento em que os clientes chegam no restaurante. Algo muito difícil nos “apressadinhos” tempos atuais.

A foto acima é da sequência de camarão que o chef Zeca D’acampora preparou para uma das edições da Boa Lembrança. É uma releitura da tradicional sequência de camarões da lagoa. O texto é do escritor e jornalista Raul Caldas Filho, autor do livro “Oh! que delícia de Ilha”.