Ser ou estar, eis a questão: a vida deve ser vivida em fases

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Foto: Pixabay

Tem uma piadinha na internet que diz algo do tipo: “Minha vida atualmente está parecendo a fase de um game onde eu não consigo descobrir o que preciso fazer para passar.” Eu já me senti assim algumas (várias) vezes. Meio presa a alguma coisa, meio sentindo que já encerrei um ciclo que não consigo ultrapassar – às vezes, até mesmo por não saber para onde ir em seguida. Dá uma certa angústia: é como estar naquele level que você tem certeza de que já zerou, exceto por um pequeno, minúsculo detalhe — que você ainda não sabe bem o que é, mas que uma vez cumprido vai te levar, finalmente, ao próximo estágio do jogo.

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Tem gente, porém, para quem essa angústia é quase insuportável: sofrem, se cobram, entram literalmente em depressão quando se veem assim, meio estagnadas em algum momento da vida. Sentem que estão perdendo tempo: enquanto o mundo vai sempre em frente, enquanto (aparentemente) todas as outras pessoas estão se movendo, elas estão ali, paradas. Repetindo a mesma fase, sem novos desafios e chefões. Ficando para trás de alguma forma.

Sabe o que eu já percebi? Que essas pessoas, de modo geral, não percebem que a vida sempre é um videogame — encaram tudo como se fosse uma partida de Banco Imobiliário, em que você precisa resolver tudo em “uma fase” só. Em que tudo é mais definitivo, mais rígido; e em que qualquer aparente atraso ou retorno é meio que uma derrota em relação aos outros jogadores. Roem as unhas de nervosismo na hora de escolher qual curso assinalar na inscrição do vestibular, como se nunca mais pudessem mudar de ideia e começar de novo. Arrancam os cabelos diante da ideia de mudar de profissão, como se o trabalho fosse algum tipo de sentença para o resto da vida: “Mas eu sou advogado!”, como se não fosse possível, sei lá, estar advogado — e, um belo dia, decidir virar professor. Choram de medo de tomar alguma decisão um pouco maior — uma mudança de cidade, ou até para a casa de alguém —, como se, depois, fosse proibido voltar atrás. Ou como se uma dessas mudanças de ideia ou de rumo fosse uma derrota: “Sete anos de namoro, e agora terminamos. Sete anos jogados no lixo.”

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Peraí: não foram sete anos jogados no lixo — foram (espero, né) sete anos felizes, bem aproveitados, em que você certamente se divertiu pra caramba e ainda amadureceu como pessoa. Se você está no seu segundo curso universitário, com certeza aprendeu algo com o primeiro; mesmo que não vá usá-lo diretamente na sua vida profissional. Se você conseguiu mudar de profissão depois de sei lá quantos anos, parabéns! Você vai ter a chance quase única de experimentar duas carreiras dentro do espaço de uma vida, enquanto a maioria das pessoas só conhece os prazeres e os sofrimentos de um único ofício. Fez três anos de dança e “não usou para nada”? Talvez você tenha se tornado mais ágil e flexível, habilidades que vai acabar usando no, digamos, vôlei, que vai ser o novo hobby de uma nova fase.

Eu não estou dizendo que mudanças são fáceis de encarar: confesso que tenho dificuldade em lidar com a maioria delas. Mas tenho muito clara na minha cabeça essa ideia de que nada é assim tão definitivo — e que mudanças de ideia podem, também, ser acompanhadas por mudanças de atitude, sem que isso afete de uma forma negativa o seu avanço nesse game que chamamos de vida. No momento, eu estou namorando (não se preocupe, amor: espero sim que isso seja definitivo), estou morando em Florianópolis, estou fazendo aulas de circo, e estou trabalhando como jornalista — mas também estou fazendo meu segundo curso na UFSC, dessa vez em Letras Alemão. Quem pode dizer que a próxima fase da minha vida não vai seguir por aí?

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