Seu filho não precisa de um celular

Não sei exatamente qual será o impacto de tanta tela no futuro dos pequenos, mas sei qual é o impacto no presente: elas estão mais imediatistas

criança com celular
Foto: Diogo Sallaberry/Agência RBS

Sei que é difícil de imaginar uma família hoje em dia que não tenha cada um de seus membros olhando para uma tela de celular, mas existiu uma época que não tínhamos essa tradição. Acredite se quiser: houve um tempo em que as crianças jogavam bola na rua e soltavam pipa (procure no Google). Eu mesmo, quando era pequeno, já ouvia minha mãe dizer que “antigamente que era bom, as crianças brincavam no meio da rua”. O meio da rua era perigoso, mas cresci jogando bola em uma quadra na praça do bairro. Hoje em dia as crianças crescem jogando futebol no videogame.

Fui em um encontro social, dia desses, parabenizar uma amiga que está grávida. Levei fraldas de presente, mas a futura mamãe me disse que hoje em dia a moda é outra: suporte para tablet. Ela já tinha ganho um suporte de tablet para o carrinho e outro para o encosto do banco do carro. Fiquei chocado. A criança nem nasceu e já tem uma programação intensa planejada, Patati Patatá no carrinho, Galinha Pintadinha indo pra creche.

Fui olhar na internet e existem capas infantis para tablet. Diz o anúncio que são mais “fáceis de segurar por crianças de menos de dois anos”. Navegando mais um pouco descobri que tem até penico com tablet, pra criança fazer cocô sem desgrudar do Youtube Kids.

Crianças pequenas, que não sabem nem digitar ainda, apertam o botão do microfone e falam para o celular o que querem assistir. E funciona! Entendo os pais que acham isso bonitinho, “meu filho é um gênio da tecnologia”, devem pensar. Mas são crianças e deveriam fazer coisas de criança, mas agora estão lá, viciadas no Luccas Neto.

Não sei exatamente qual será o impacto de tanta tela no futuro dos pequenos, mas sei qual é o impacto no presente: elas estão mais imediatistas. Diferente da TV, no celular eles têm tudo o que querem na hora que querem. Já clicam no “PULAR ANÚNCIO” do Youtube. Já assistem um vídeo navegando por outros vídeos, que vão assistir em seguida. Assim, exigem que a vida real seja imediata também. Se tornam impacientes. É por isso que seu filho, às vezes, grita “SUCO!” quando está com sede. Quer o suco agora! Pra ontem! Sem “por favor” nem “obrigado”, que no celular não tem essas frescuras.

Seu filho não precisa de um celular, ele precisa de você. De vez em quando, com a sua companhia e tempo controlado, um vídeo ou jogo são divertidos. Mas ainda não inventaram nada mais legal do que a vida offline.

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