Sobre a ditadura da felicidade

Às vezes, os dias cinzentos conseguem vencê-la

Foto: pixabay

Estou tendo um mês meio cinzento. E não tem tanto a ver com as nuvens, a chuva, e o friozinho que rolou no último final de semana – embora isso certamente contribua para o cenário. É mais uma falta interna de cores. De vibração, de música. Tudo está meio sonolento, meio sem graça. Ao contrário do que normalmente acontece, tenho mais vontade da minha cama que do mundo lá fora. Só quero que chegue a sexta-feira, para poder deitar aconchegada no meu namorado e assistir Netflix até enjoar, sem pensar em nada realmente importante.

Tudo bem, acho que todo mundo sempre espera pelas sextas-feiras com uma certa ansiedade – e que as segundas têm um peso um pouco maior que os outros dias da semana. Mas eu me considero uma pessoa bem positiva: consigo acordar na segunda de manhã, pensar nos meus planos para os próximos dias e me empolgar com eles; não querer me esconder de medo ou de preguiça embaixo das cobertas. Mas às vezes acontece. São esses dias cinzentos. Em que o recadinho otimista que eu costumo programar com o despertador me parece mais irônico que animador. Em que ser simpática com as pessoas no ônibus é um pouco mais complicado. Em que o trabalho parece repetitivo, chato, interminável. Em que ninguém parece ser a pessoa que eu quero ver – e que talvez pudesse resgatar um pouco do meu humor e salvar o meu dia.

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“Por meio minuto, desejou que fosse outro tipo de dia; mesmo sabendo que nada de bom podia advir de querer algo do mundo” – esse pensamento é de Auri, personagem de A Música do Silêncio, de Patrick Rothfuss. E é como eu me sinto nesses dias sem cor. Querendo que eles estivessem um pouco menos nublados, independente da quantidade de nuvens no céu.

Mas eu já percebi que esse é justamente o problema: renegar esses dias só torna tudo muito mais difícil. Só faz as horas passarem mais devagar. Nós criamos uma sociedade tão sedenta por felicidade – com a permanente competição nas redes sociais, as revistas pregando estilos de vida impossíveis, as histórias aparentemente tão comuns de empreendedorismo e superação – que um dia de tristeza, mesmo que justificada, parece uma derrota. Uma falha. É como se, em um dia melancólico, passássemos o dia todo com metade do cérebro pensando “okay, agora vou ficar bem”, “okay, vamos lá, anime-se!”, “olha, essa postura não ajuda em nada”, enquanto a outra metade chafurda na culpa pela incapacidade de fazer isso. Pode isso – sentir-se culpado por não estar feliz? Tratamos a tristeza com a rejeição que reservamos a uma doença – quando a rejeição, na verdade, não funciona nem com a doença: uma tosse não passa quando você finge estar sem tosse, passa quando você compra um bendito xarope. Quando você admite o que está acontecendo e vai atrás de uma solução.

A libertação, eu acho, está em acolher essa tristeza – deixá-la vir com a força que ela julgar necessária, e permanecer por algumas horinhas, talvez alguns dias. Só hoje, você não precisa se forçar a sorrir para todo mundo. Pode ficar de fones de ouvido no trabalho, sem socializar. Pode comer um chocolate depois do almoço. Pode chorar no colo da mãe ou do melhor amigo – pode até ouvir Adele ou assistir P.S. Eu Te Amo se as lágrimas estiverem demorando para vir. É um equivalente a repousar por um dia para tratar aquele resfriado. E depois vem a medicação: identificar o que está causando essa tristeza, e tentar resolver. Se depender só de você, ótimo. Se for uma tristeza que você não pode resolver – um luto, um término sem volta mesmo, ou até aquela melancolia da TPM -, respire fundo: mais dias cinzentos virão, mas vai passar. One day you’ll wake up and it won’t hurt anymore, canta o Maroon 5.

Claro – se você estiver triste por semanas, meses, e sentir que essa escuridão toda não passa, talvez seja hora de pedir ajuda: às vezes pode ser mais que uma simples tristeza, e lidar sozinho com essas coisas é mais difícil do que parece. Mas, se não for esse o caso, relaxe: não adianta forçar uma aquarela na paleta cinzenta de cores que o seu dia escolheu para vestir. Aceite – e vista o cinza também. Assim, o azul de amanhã certamente vai parecer muito mais vivo.

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