O estranho mundo em que o sofrimento virou motivo de orgulho

Dá quase vergonha ser feliz. Dá quase vergonha contar que comprou um carro, que passou de primeira no vestibular, que não ficou deprimido com o fim do relacionamento

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Sendo humana, consigo pensar em muita coisa que me irrita – ignoro a maioria delas, mas tem uma pela qual eu acho especialmente difícil passar por cima: a mania que muita gente tem de competir para ver quem sofre mais. Quem passou por mais dificuldades. Quem tem menos dinheiro. Quem tem a doença mais grave e a dor mais dolorida. “Ai, você nem sabe o que me aconteceu: hoje perdi o ônibus e tive que caminhar um monte na chuva.” “Aah, pior eu: eu tive que caminhar carregando essa sacola pesada, e no fim descobri que nem precisava ter trazido, acredita?”

“Pior eu.” Como se fosse um mérito ser pior – ou estar na pior situação – em qualquer coisa. Como se fosse desejável. Tem gente que parece encontrar prazer na desgraça: adora contar um “causo” que envolva uma tragédia. “Lembra da fulana?” (não, não lembro) “Aqueeela, filha da beltrana? Casada com o ciclano? Então, morreu.” Eu penso: será que se a fulana – praticamente uma desconhecida para mim – tivesse passado no vestibular, se mudado para a Holanda ou tido um filho, eu teria ficado sabendo? Provavelmente não – porque não me interessa, né? Afinal de contas, o que a vida da fulana tem a ver com a minha? Okay, e o que a morte da fulana tem a ver com a minha vida? E com riqueza de detalhes, geralmente: era câncer, coitada. Ela ficou três semanas internada no hospital antes de morrer. Imagina a dor, né? Não, eu não quero imaginar. Eu não quero saber de nada disso, obrigada. Por que eu iria querer? Só porque é má notícia?

Aparentemente, é isso o que muita gente pensa. As mesmas que quase param o carro para tentar espiar o acidente na estrada – e contar todos os detalhes mórbidos ao chegar no trabalho. As mesmas que deram milhares de views para a gravação daquela menina que se suicidou pulando da ponte Hercílio Luz, aqui em Floripa. As mesmas que alimentam jornais que pingam sangue e aqueles programas de TV onde o apresentador berra histericamente contra o traficante, o estuprador, o assaltante – e narra o crime em um tom que tenta deixar claro o quanto ele se horroriza com os acontecimentos; quando, na verdade, só o fato de ele passar horas falando repetidamente a mesma coisa já deixa claro que ele não se horroriza tanto assim, não.

Não me interpretem mal: eu não estou defendendo que deixemos de prestar atenção nas mazelas do mundo, que ignoremos o sofrimento alheio, que fechemos os olhos e finjamos que a Terra é um lugar perfeito, onde as tristezas não existem. Não estou dizendo que devemos deixar de lutar contra o que julgamos injusto. Só acho que, quase sempre, todo esse foco nas tragédias é menos altruísmo e mais vontade de se fazer digno da pena alheia – ou, então, de se convencer de que sua vida é, sim, boa, porque olha como quem tem gente que sofre mais. Ou, ainda, de se mostrar a mais santa e bondosa das pessoas, disfarçando a morbidez natural humana com uma capa mentirosa de preocupação e solidariedade. Quem sabe até, simplesmente, de ter a “melhor” história para contar na rodinha de amigos – ou pelo menos a mais sangrenta; o que, na visão de uns e outros, é quase a mesma coisa.

Nesse contexto, dá quase vergonha ser feliz.

Dá quase vergonha contar que comprou um carro, que passou de primeira no vestibular, que não ficou deprimido com o fim do relacionamento, que, na verdade, aquela demissão era algo que você queria pedir há tempos, mas não tinha coragem. Dá quase medo confessar que não, o divórcio dos meus pais não me deixou traumatizada; que, não, eu não achei um absurdo o que sua amiga fez; que, bom, na verdade eu fiquei tão pouco triste com o que aquele conhecido disse que nem me lembrava mais. É preciso respirar fundo antes de anunciar que ganha bem, que vai viajar no final do ano, que foi pedido em casamento. É como se fosse uma ofensa a um mundo tão ranzinza – que prefere fingir que o mal, o triste, o trauma, é a regra.

Dia desses eu ouvi que o mal só choca porque ainda é exceção, e concordo. A felicidade e a leveza são regra nos meus dias, e não o contrário – e por isso é nelas que eu foco, não nas tristezas e tragédias. E, bem, eu não vou me envergonhar por ser feliz. E nem pedir desculpas por isso.

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