Taís Araújo desiste de viver cientista no cinema após polêmica sobre sua cor de pele

Espectadores alegaram que o tom seria mais claro do que o da personagem

Tais Araújo
Atriz começou a deparar com a polêmica e logo viu que o que as pessoas diziam era o mais correto. Foto: Reprodução/Instagram

A atriz Taís Araújo, 40 anos, não vai mais viver nos cinemas a renomada cientista paulista Joana D’Arc Félix. A ideia inicial dela e do diretor, Alê Braga, de mostrar por meio de sua atuação a história da mulher pobre que virou PhD em Harvard (EUA), teve de ser abortada por conta de um descontentamento em comunidades, grupos e redes sociais. Pessoas alegaram que o tom de pele de Taís seria mais claro do que o da cientista, e que uma outra atriz mereceria o papel.

Assim que Taís começou a deparar com a polêmica logo viu que o que as pessoas diziam era o mais correto.

— Quando eu li só falei que eles estavam cobertos de razão. Quando me dei conta do que acontecia, eu nem desconfiei, eles estavam certos. Eu não seria a melhor pessoa — afirma Taís.

Segundo ela, o ideal é, realmente, dar a oportunidade de uma mulher com um tom de pele mais escuro ser a estrela, já que elas sofrem ainda mais preconceito e estão fora do mercado.

— Na real, quero que as pessoas conheçam a história da Joana, uma mulher que nos inspira. Imagine a quantidade de Joanas que perdemos ao longo do percurso por falta de estudos, de oportunidades. É a história de como uma educadora transformou a vida de pessoas. Quem vai contar é o de menos — revela.

Por mais que não seja mais a protagonista, a artista conta que não deixará a produção.

— O que acontece é que eu continuo realizando o filme, como produtora associada e como atriz. Tenho muito desejo de mostrar esse enredo, mas em outro papel. A gente ainda está desenvolvendo, quem sabe como irmã da Joana ou algo assim — adianta.

Outro caso

Fato semelhante aconteceu com a cantora Fabiana Cozza, 43 anos, em junho do ano passado, que  havia sido escolhida para viver a sambista Dona Ivone Lara (1922-2018) em um musical. No entanto, uma polêmica parecida com relação ao seu tom de pele a fez desistir.

“Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”, desabafou Fabiana Cozza em uma carta aberta na época.

O longa, de acordo com o diretor, Alê Braga, ainda não tem data para estrear. Aliás, o filme segue em fase embrionária e aguarda por dinheiro para poder alavancar. A etapa, agora, é de adaptação e roteiro. Por conta disso, ele revela que ainda não há uma atriz escalada para viver o papel principal.

— O lado bom disso tudo é que houve comentários positivos sobre o filme. Não era para ter sido divulgada ainda toda essa questão, acabou vazando. Eu também fui questionado, enquanto homem e branco, sobre o que eu estava fazendo à frente desse projeto. Mas digo que eu tive a ideia, sou cineasta e tenho experiência em filmes em que trato a diversidade com respeito e de forma correta. Na minha equipe, há muitas mulheres, negras, pessoas capacitadas e que nos ajudam diariamente — afirma.

De toda forma, as críticas, segundo o próprio diretor, serviram para causar uma reflexão. Ele pondera que desde o início não houve susto com a desistência de Taís, que havia entendido perfeitamente o motivo e concordado.

— Foi uma coisa que me fez ir estudar, fui buscar mais informações. Algo que é bom falar: o projeto está no berço ainda e está oficialmente parado. O único papel que eu havia escolhido era o da Taís. Existem mais duas possibilidades para ela e está tudo bem tranquilo. Espero que saia logo do papel — finaliza Alê Braga.

Paralelo ao filme de Joana D’Arc Félix, há também o que vai homenagear a cantora Elza Soares. Nesse, Taís será o papel principal. Ainda não há data para a estreia.

— Também está bem no início. A Elza é um ícone, já a interpretei no filme Garrincha – Estrela Solitária (2003). A história dela tem de ser celebrada —  conclui Taís.

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