Takeuchiss: fotógrafas de SC estão entre as 10 mulheres que estão mudando a forma como o feminino é representado

Takeuchiss

Diversidade de estilos é marca das irmãs, influenciadas pelas viagens que realizam pelo mundo. Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação

Por Fernanda Volkerling, especial

Em menos de uma década, elas foram da primeira câmera comprada para um portfólio expressivo em fotografia e direção criativa, com trabalhos para marcas, lojas e publicações como Elle, Claudia, Sicky Mag, Cake Magazine, além de inúmeros projetos independentes – este mês, estão nas bancas e na internet com um editorial para a Glamour de janeiro.

Aos 26 anos de idade, as irmãs gêmeas Andréia e Nathalia Takeuchi – ou simplesmente Takeuchiss, como assinam – já são destaque na fotografia de moda. Elas fazem parte de uma geração que busca novas abordagens – estéticas, éticas e políticas – para a moda e seu registro, questionando conceitos hegemônicos em um universo dominado por padrões, perfeccionismo e medidas milimétricas, e no qual a maioria dos grandes fotógrafos e diretores ainda é do sexo masculino.
Muita coisa mudou para as duas desde aquela primeira câmera: opiniões, olhares, perspectivas. Até mesmo a casa é outra, com a mudança de Florianópolis para São Paulo. Viajaram, conheceram pessoas e realidades diferentes. Uma coisa, porém, ainda é igual: elas continuam fazendo tudo juntas: moram, trabalham, viajam juntas. Na hora de clicar, não separam as funções. Vão revezando a câmera e, enquanto uma fotografa, a outra fica de assistente. E vice-versa logo depois.

Parceria na fotografia e nas viagens pelo mundo. Foto: Arquivo Pessoal

Formadas em design gráfico pela UFSC, Andréia e Nathalia moraram por mais de uma década em Santa Catarina, onde iniciaram o contato com a fotografia ainda na adolescência. Na época, o grande lance era curtir a câmera, clicar à vontade e explorar as ferramentas de tratamento digital de imagem por pura diversão. Juntou-se a isso o interesse das gêmeas pelo mundo fashion, influenciadas principalmente pela irmã mais velha, que estudou moda, e já na faculdade começaram os primeiros shoots de editoriais, ainda entre as amigas que cursavam moda na Udesc. E foi assim, de uma forma natural, mas não sem alguma surpresa, que as duas começaram a descobrir os próprios talentos para a carreira que se delineava.

– O que nos interessa na fotografia de moda é a liberdade de criar, contar histórias, mexer com imagens. Eu, por exemplo, sempre gostei muito de arte, mas não tinha o talento para desenhar ou pintar, então a fotografia me trouxe essa possibilidade de criar também – comenta Nathalia.

Ensaio feito pelas Takeushiss

Estilo: o que pintar

Do estúdio à rua, do fundo branco ao caos visual da paisagem urbana, da luz natural aos refletores, da superprodução ao quase nada de produção. Mulheres comuns, mulheres modelos de agência. Candy colors, tons pasteis, preto e branco. Retratos posados e cliques de raspão. Ora tradicional, ora experimental. Todos esses elementos cabem na fotografia da dupla Takeuchiss, e por isso é impossível encontrar uma só definição que alcance e sirva para descrever todo o trabalho.

Foto: Takeushiss

Essa diversidade tem a ver com o fato de que Andréia e Nathalia moraram fora do Brasil – em Los Angeles e em Londres – e sempre que possível combinam de viajar juntas. O contato com outros lugares e culturas é o que, segundo elas, alguns observadores apontam como um “olhar internacional’ para a fotografia nos cliques da dupla. Além disso, ao pensar criativamente um trabalho, em vez de buscar referência em catálogos e materiais produzidos por outras pessoas, as irmãs preferem apostar nas próprias ideias, o que garante uma pegada mais fresh e surpreendente às imagens.

– Nunca paramos muito para olhar o trabalho dos outros ou tentar fazer algo parecido. Sempre gostamos muito de experimentar, nunca tentamos entender o que era certo e o que era errado. Desde o início, procuramos fazer e fomos aprendendo a partir do que a gente achava legal – comenta Andréia.

Fotografia e experimentações gráficas Foto: Takeushiss

De fato, um estilo às avessas – como se fosse um não-estilo, desvinculado de uma repetição que venha a antecipar a identidade – é uma das marcas das gêmeas. Se a moda é o império do efêmero, fugir de uma forma previamente delineada é redobrar esta fugacidade, apostando as fichas em ideias que podem durar apenas um clique. Por outro lado, ao misturar colagens e GIFs às fotografias, fica claro que o convencional não é a regra para essa dupla.

– Gostamos de agregar à fotografia outras coisas que nos interessam, como trabalhos manuais. Já usamos colagem, bordado. Querendo ou não tudo é hoje muito digital na foto, então a gente busca trazer essas experimentações também – comenta Nathalia.

Moda, mulher e ética

Entre o desfilar de tendências e a rotatividade frenética das vitrines, a moda como elemento dinâmico da cultura é também um campo de reflexões estéticas e políticas. Para Andréia e Nathalia, a dimensão sociológica da moda tem se tornado cada vez mais presente e importante na criação e na escolha dos jobs, especialmente ao longo do último ano.

Adeptas de um estilo de vida mais próximo da natureza e dos animais – embora hoje vivam em um apartamento em São Paulo, elas cresceram morando em casas com quintal e muitos bichos –, já recusaram trabalho para uma marca que comercializa produtos feitos com pele, por discordarem da atividade. Em 2017, passaram três meses viajando por diferentes países da Ásia e voltaram para casa ainda mais inspiradas por culturas, formas, pessoas, olhares os mais diferentes e toda essa experiência, é claro, também se refletiu na hora de pensar a fotografia.

– A gente continua acreditando nessa beleza que é natural, pouco produzida, da maneira como já vínhamos fazendo, mas avançamos nesse último ano em tentar pensar a questão da representatividade, qual mulher queremos mostrar, questionar o nosso próprio portfólio e buscar retratar não só modelos, mas também mulheres comuns – relata Andréia.

Fotografia com conceito e alinhado a ideais que desconstroem padrões Foto: Takeushiss

Em dezembro, as gêmeas foram listadas pela Elle entre um grupo de 10 mulheres inspiradoras que estão mudando a forma como o feminino é representado nas fotografias, reforçando este aspecto em que a câmera não é apenas uma ferramenta de trabalho, mas um instrumento para transmitir ideias e opiniões.

– Ir para a Ásia foi importante nesse sentido, em perceber que poderíamos contribuir para a representatividade de outros tipos de beleza. Estamos explorando mais esse lado de fotografar mulheres comuns que façam uma imagem forte e digam alguma coisa, e não só modelos – complementa.

Travel Diary

Para conhecer um pouco mais as inspirações das Takeuchiss, vale a pena conferir o blog  e Tumblr com fotos de viagens das gêmeas pelo mundo. Em 2017, elas fizeram um mochilão pela Ásia e capturaram belos momentos no Laos, Vietnã, Tailândia e Japão, onde também acabaram clicando editoriais nas ruas de Tóquio.

Leia também

Ano do Cosmos: o que será tendência em 2018

Literatura em Movimento: Barca do Livros promove festival literário, de música, cinema e artes em Florianópolis