Tango: a força da cultura de um país levada pela dança

Casal de bailarinos de tango reconhecido internacionalmente, Erica Boaglio e Adrian Aragon escolheram Florianópolis para fixar residência e trazem para o Estado o espetáculo Divino Tango, sucesso de público na Europa

Erica Buaglio e Adrian Aragon
Foto: Diorgenes Pandini

Reconhecidos internacionalmente, o casal de bailarinos de tango Erica Boaglio e Adrian Aragon escolheram Florianópolis para fixar residência. Juntos, já possuem um currículo com quase mil apresentações, uma companhia de dança com sede na Itália, e a participação em uma produção do conceituado diretor Carlos Saura, na Espanha, indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1998: Tango, no me dejes nunca.

O casal, que já rodou o mundo levando a cultura do tango e da Argentina, traz para Santa Catarina, em primeira mão, um espetáculo que foi sucesso de público na Europa. Divino Tango – Pasiones Company será apresentado no dia 24 de agosto no Centro Integrado de Cultura – CIC, em Florianópolis, e no dia 25 de agosto no Teatro Municipal de Itajaí.

— Esse espetáculo é como uma apresentação. É como dizer: “estamos aqui e isso é o que nós fazemos” — comenta Adrian, que ao lado de sua esposa, Erica, concedeu uma entrevista para a Revista Versar. Confira:

 

Por que escolheram Florianópolis para morar?

Erica: Porque é lindo! (risos) Achamos que é uma cidade maravilhosa pelo contato com a natureza.

Adrian: Nós já moramos em Buenos Aires e em turnês passamos por grandes cidades como Roma e Milão. Em 2017 fomos morar em Turim, na Itália, onde montamos uma escola de tango. Lá é muito frio, então tomamos a decisão de nos mudar para um lugar onde teríamos mar, além de um movimento cultural. O frio aqui é tranquilo. Na Itália chegamos a menos 10 graus. Analisamos e vimos que Florianópolis nos oferecia várias possibilidades. Além do turismo, a cidade é sede de grandes empresas e é também culturalmente forte. Pensamos que poderíamos criar uma estrutura para tocar todos os nossos projetos, inclusive as nossas produções para a Europa.

 

Como vocês começaram na dança e como se conheceram?

Erica: Ele foi meu primeiro mestre de tango.

Adrian: Eu sou mais velho 10 anos. Quando eu comecei a dançar tango, lá nos anos 1980, com 13 anos já ia para Buenos Aires aprender – somos de Córdoba – depois eu comecei a trabalhar com ela em um balé de danças folclóricas. Assim nos conhecemos. Eu era professor e único bailarino. Depois a menina cresceu (risos). Em 1994, criamos a nossa parceria, fomos morar em Buenos Aires, passamos pelas melhores companhias da época, gravamos um filme – Tango, do Saura – viajamos por lugares como Estados Unidos, Europa e Ásia. Temos quase mil apresentações em diversos teatros do mundo. Em 2003 criamos a nossa companhia.

Erica Buaglio e Adrian Aragon
Foto: Diorgenes Pandini

 

Na companhia existe um método diferente de ensino do tango?

Erica: A característica da nossa companhia é fundamentalmente um espetáculo contemporâneo, não como dança, mas esteticamente falando. A maioria dos espetáculos de tango contam uma história e o nosso tango é atual, é o tango de hoje, a estética de hoje, o figurino de hoje, não é aquela coisa dos anos 1940 ou 1920. Mas sempre repeitando a cultura do tango, mesmo com um olhar atual.

Adrian: Dentro da cultura do tango existe a cultura de um país. Nossa característica também é de espetáculos mais musicais, contando histórias. No primeiro espetáculo que montamos, falamos das paixões argentinas, pegamos todo o país e fizemos uma apresentação como uma partida de futebol, mas lógico, sempre com música de tango. Não é só um show de tango, onde um casal se apresenta e sai, entra o cantor e sai, nos contamos histórias atuais e do tango. Menos estereótipos, como rosa na boca como fazia Tarantino. O tango para nós é mais natural, uma cultura muito viva.

 

Tem diferença do tango do palco e do salão?

Adrian: Para nós que somos artistas, respeitamos muito as linhas do palco. Colocamos coisa do tango de salão, mas com os olhos de diretor de palco, porque se não o público não se interessa. O público quer ver um artista, uma apresentação teatral e isso nos temos porque somos bailarinos de salão. Do salão projetamos para o palco. E esse olhar é que faz a diferença.

Erica: Não é que deixamos de lado o tango essencial – o abraço, o olhar, a parceria, a sensualidade, a paixão – essas coisas sempre estão presente, mas num contexto bem teatral.

E dos palcos vocês foram parar no cinema, em um filme indicado ao Oscar. Podem nos contar como foi receber esse reconhecimento e como foi participar desta produção.

Erica: Foi uma coisa linda como experiência profissional. O diretor trabalhava conosco o tempo inteiro. Ele improvisava com os bailarinos. Não ficava somente no lugar de diretor, longe. Ele estava próximo, e quando via alguma coisa diferente que lhe podia servir, ele falava: “isso eu gostei, faz isso”. Depois, como estávamos na Europa, fizemos toda a apresentação do filme para a imprensa na Itália. Foi uma maravilhosa experiência.

Adrian: O filme foi uma superprodução, foi indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro. Foi um grande investimento. O set de filmagem mudava continuamente, era mágico. O diretor de fotografia era Vittorio Storaro, o mesmo de Apocalypse Now, um filme histórico. Para nós artistas, chegar todos os dias às 6h ou às 7h da manhã e ver tudo mudado, era uma experiência muito boa. Tivemos a possibilidade de participar, depois de participar de uma audição com mais de 200 casais, e fomos escolhidos para fazer parte de um grupo seleto de 16 casais. Isso foi uma forma para entendermos o cinema e ver como se trabalha. Depois, em 2011, fizemos um documentário – que ainda não foi lançado – de um espetáculo nosso em Gênova.

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