Tem coisas que só acontecem no final do dia de praia

Amigos bêbados celebram nada com suas taças de plástico e isopor vazio. A família que toca o quiosque faz as contas. Esse verão foi ruim demais

Florianópolis foi considerado o melhor destino de praia
Foto: Betina Humeres

Juntou uma pequena multidão depois que uma senhora escorregou na ducha e bateu a cabeça. Tá tudo bem, tá tudo bem. Famílias indo embora com latas de Brahma na mão. Crianças deixando pra trás suas pazinhas na areia. Um casal tenta transar no mar e acha que ninguém está percebendo. Tem coisas que só acontecem no final da praia.

Amigos bêbados celebram nada com suas taças de plástico e isopor vazio. A família que toca o quiosque faz as contas. Esse verão foi ruim demais. Diz que os argentinos que sempre vinham não vieram. É a crise!, grita um. Um jovem magro anda de bicicleta, seguido por um cachorro.

Já é quase noite e eu entro no mar. O calor me expulsou do apartamento. O calor, e acho que um pouco de solidão. Nesse verão recebemos amigos aqui, no nosso cantinho da praia onde o mar é esmeralda e minhas filhas aprenderam a respeitar as ondas. Foi um verão daqueles memoráveis, com dias ininterruptos de sol e pessoas que amamos.

Generosamente, elas vieram nos visitar. O Fábio e a Lu, pais do Vitor, passaram três dias. Eu sabia que acordavam cedo, então me esforçava pra acordar mais cedo ainda. Fazia o café, cortava umas frutas, queria que se sentissem bem porque gosto deles. Pra que soubessem, nos goles de café e na manga cortada, o quanto agradeço a visita.

O Timóteo e a Paula vieram depois. Como ainda não tem filhos, são cheios de energia e histórias, daqueles casais que adoramos, que conhecem praias paradisíacas escondidas e fazem cursos de kitesurf. E como eu e minha esposa temos filhos e não descobrimos uma praia escondida faz tempo e provavelmente nunca faremos um curso de kitesuf, ouvimos essas histórias deslumbrados. Evitamos questionar “quando vão ter filhos?”, que achamos falta de educação.

E depois vieram o Bernardo, a Camila e a Dani, e estar perto deles é como ter de novo vinte anos de idade. Jogamos Uno, bebemos drinks com os insumos disponíveis, praticamos surfe de peito (jacarezinho para os íntimos) até as dez da noite. São os nossos amigos gaúchos, e isso significa que ir pra praia com eles é uma constante comparação com Capão da Canoa, uma avaliação constante do vento e da transparência do mar, uma verificação se realmente o mar não tem água-viva, que eles chamam de mãe-dágua.

E vieram o Douglas e o Paolo, o Marcelo com a namorada, a Ju e o Caê com os filhos, e lembrei de todos naquele fim de praia, naquela quarta-feira de cinzas. Era quase noite e entrei no mar pensando neles. E foi como se estivéssemos todos juntos de novo.

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