Tendência: jantar compartilhado faz bem para o corpo e para a alma

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por Carol Passos

Assim que descemos do carro, ouvimos o soar de pequenos sinos sincronizados. A porta se abriu e surgiu a anfitriã. Trajada com um sari, a roupa típica usada pelos devotos de Krishna, Patricia Santos Nunes de Alcantara, 29 anos, exibia  um sorriso amistoso e nos convidou gentilmente a entrar como se fossemos velhos conhecidos.

Logo eu e o repórter-fotográfico Marco Favero nos deparamos com pares de sapatos dispostos em uma pequena prateleira na soleira da porta. Antes mesmo que perguntássemos a respeito do protocolo, Patricia anunciou com um discreto sotaque carioca:
– Não é obrigatório tirar os sapatos, apenas se tiverem vontade – sorri.

Tiramos, pois a ideia era que a experiência fosse plena. Ao entrarmos na casa – que na verdade trata-se do Centro Cultural Vrinda Floripa instalado na Rua João Collaço, no Córrego Grande, em Florianópolis – seguimos a orientação da anfitriã e ficamos à vontade. Ainda sem entender direito como seria o jantar compartilhado que viemos acompanhar – objetivo da pauta –,
ela nos convidou a subir uma estreita escada em formato de caracol onde chegamos ao sótão.

Lá, cinco pessoas, um homem e uma mulher trajados como Patricia, entoavam mantras voltados para um altar. Ao lado das imagens das deidades Goura e Nitay havia uma pessoa atrás de uma espécie de cortina da qual só percebíamos uma das mãos segurando um recipiente com incenso. Outras duas mulheres, vestidas com roupas comuns, assistiam a tudo, sorrindo. Uma delas, Juliana Couto, 24 anos, tentava entender os mantras escritos em um livro, porém impronunciáveis para um leigo.

A outra era Elisabete Stopazzoli, 59, que observava os cânticos sentada. Patricia entrava e saía do cômodo, mas seguidamente conferia se estávamos todos confortáveis. Respondemos em consenso que sim.

A apresentação 

No jantar de Patrícia Santos, uma receita da culinária vegana / Marco Favero

Poucos minutos depois, descemos para encontrar o último convidado. Na sala de entrada, onde também havia uma mesa decorada com pequenos vasos de flores naturais, Eduardo Fettuccia, 56 anos, nos aguardava. Inicialmente solene, estendeu a mão a cada um de nós, o que motivou uma série de apresentações. Foi então que a minha impressão de que todos se conheciam caiu por terra. Era a primeira vez que o grupo se encontrava. Eduardo, empresário e chef nas horas vagas, se apresentou como embaixador do site Dinner em Florianópolis, uma espécie de Airbnb de gastronomia, no qual qualquer entusiasta pode se cadastrar  e oferecer refeições a convidados também inscritos no sistema, por um valor pré-determinado.

Edu cozinha por prazer e ama carnes – é especialista em comida árabe. O cardápio, como manda a filosofia Hare Krishna, era vegano, mas ele não se importou. Logo se definiu como uma pessoa disposta a provar diferentes sabores e aberto a conhecer pessoas com ideias e objetivos diversos.
– A proposta é reaproximar as pessoas, trazer de volta o hábito de comer à mesa, às refeições em conjunto – resumiu o convidado.

Logo em seguida, descobrimos que o chef da noite era uma das pessoas que estavam entoando os mantras. O colombiano Juan Carlos Rosero, conhecido como Mantra, 52 anos, elaborou um cardápio com pratos indianos, pães sem glúten e verduras da estação, acompanhados de kombucha com abacaxi – uma bebida probiótica feita a partir de chá. Os convidados ficaram conversando e o assunto que dominava era comida, claro. Enquanto isso, o chef voltou à cozinha acompanhado dos ajudantes para finalizar o jantar.

É hora de jantar

Momento de fazer amigos / Marco Favero

O escritor francês Michael Pollan, autor de Cozinhar – Uma História Natural da Transformação, considera compartilhar uma refeição como um dos fundamentos da família e, por consequência, da formação da sociedade. É na mesa, observando nossos semelhantes comendo, que aprendemos os primeiros hábitos sociais. É também o momento da partilha, quando conversamos, nos divertimos e saboreamos os alimentos. Daí vem o fato de relacionarmos algumas de nossas boas memórias a momentos em que dividimos comida com alguém. Mais do que matar a fome, compartilhar uma mesa é saborear e estar junto. É a ideia de que comer pode ser uma experiência.

De volta ao jantar que acompanhamos, junto à mesa de madeira acrescentou-se uma segunda, de plástico. Os talheres simples, de cores diferentes, foram colocados. Nos sentamos esperando o que viria a seguir. Logo descobri que Juliana mantém um Instagram e um blog chamados Vegana Prática. Com bastante propriedade, tirou algumas dúvidas que surgiram no grupo a respeito das proteínas e nutrientes presentes na culinária vegana, na qual não se consome nenhum tipo de proteína com origem animal, como leite e ovos.

A opção pela dieta a motivou a cozinhar, mas ela nunca tinha participado de um jantar compartilhado.
– É algo totalmente diferente do que eu esperava. É uma experiência. Gosto muito dessa possibilidade de estar em contato com quem produz e de poder provar uma comida diferenciada servida de uma forma única – comentou.

A conversa seguiu animada quando Elisabete, a Bete, contou que já preparou três jantares por meio do Dinner. Ela também tem o título de embaixadora, mas nunca havia tido a experiência de ser uma das convidadas. Bete é chef profissional e sua especialidade é o churrasco, porém, nos jantares que prepara em casa, prefere servir frutos do mar e para até seis pessoas.
– Já cozinho em grandes quantidades quando sou contratada. Quando recebo convidados, gosto de conversar e já fiz amigos – contou.

Oportunidade de divulgar uma filosofia

Voluntária do Centro Cultural ajudando na preparação do jantar / Marco Favero

Receber desconhecidos em casa pode ter várias razões. Para Eduardo, por exemplo, é um hobby, uma oportunidade de mostrar ao mundo seus dotes culinários. Ele desenvolveu a habilidade da gastronomia árabe acompanhando o trabalho de um nativo em São Paulo e “aprendeu do jeito que é”, como afirmou com convicção. Ele também prepara pratos italianos, japoneses e chineses. Já promoveu três jantares. No início, achava que os convidados ficariam tímidos, mas “20 minutos depois já viramos amigos”. A empolgação foi tanta que ele construiu um espaço para até 30 pessoas, porém, ainda não realizou um jantar com tantos convidados.

A prática em receber as pessoas no Centro Cultural muito provavelmente deu a Patricia, que é professora de yoga, o talento de ser uma anfitriã. É o nome dela que está inscrito no site do Dinner e este jantar que presenciamos foi o primeiro que ela participou. Descobriu o site por acaso, num post em um grupo do Facebook, viu ali a oportunidade de divulgar a filosofia Hare Krishna por meio da gastronomia trazendo diferentes pessoas ao Vrinda. Tanto ela quanto o chef Mantra acreditam no modelo de economia compartilhada , uma forma de consumo sustentável. Ao oferecer alimentos para outras pessoas, trocam-se ideias e experiências.
– Há um resgate da memória, do que é ser humano. Estamos aqui compartilhando alimentos, de uma forma saudável, nos conhecendo – conta Patricia, que mora em Florianópolis há três meses.

Ela saiu do Rio de Janeiro incentivada pelo seu guru. Há dois anos a professora conheceu o movimento e resolveu praticá-lo. Em Floripa, atua como voluntária no Centro Cultural Indiano e participa dos eventos de contribuição coletiva, como os festivais indianos que ocorrem todos os domingos a partir das 16h no local. O convite está sempre aberto na comunidade. Há quatro anos em SC e cinco no Brasil, Mantra acredita que ao compartilhar estamos todos juntos:
– Somos conectados. Precisamos nos livrar da ideia de sermos individualizados para entender que somos família.

Compartilhar faz bem à saúde

A plenitude depois de um almoço em família ou uma noite com os amigos se explica por uma liberação em cascata de substâncias no cérebro. Uma das mais marcantes é a oxitocina, o “hormônio do amor”. Produzida na hipófise, ela atua como um calmante e gera aquela sensação de estar conectado.

Há a hipótese de que o contato social iniba o hipotálamo posterior, zona responsável pela secreção de hormônios do estresse, ligados ao aumento da pressão arterial e à aceleração de batimentos cardíacos. Ao mesmo tempo, elevam-se os níveis de endorfina, analgésico natural ligado ao prazer, e de neurotrofinas, proteínas que estimulam o surgimento e a sobrevivência de neurônios.
– O estímulo cognitivo também está relacionado com ações sociais. O velhinho que se diverte e ri estimula a memória durante a conversa, se esforça para entender o argumento do outro. É um jeito também de se proteger contra o Alzheimer – afirma a neurocientista Mônica Vianna, pesquisadora de longevidade e professora na Escola de Ciências da PUC-RS.

Mais do que isso, relacionamentos nos conferem posições sociais dentro de um grupo e contribuem para a manutenção de uma autoestima saudável. Esse senso de propósito – estar conectado a algo maior – é apontado por analistas como essencial para nossa saúde. Estudo britânico publicado no Journal of Epidemiology and Community Health mostrou que quem tinha mais amigos aos 45 anos relatava mais bem-estar aos 50. Isso é especificamente importante para idosos, que podem se sentir sem rumo após a aposentadoria, por exemplo. A reconexão com um bem comum pode se efetuar com o preparo das refeições em família ou atividades lúdicas.

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