“A Freira” sobrevive graças ao mito criado na franquia “Invocação do Mal”

"A Freira" é o primeiro golpe baixo de produções neste modelo, no qual a única intenção é criar cenas de sustos sem que exista qualquer coesão narrativa para que isso aconteça

A Freira
Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação

Por Andrey Lehnemann/Especial

Assim como Annabelle, a cada aparição d’A Freira no filme de Corin Hardy (A Maldição da Floresta), o público segurava o ar e ficava constrangido com a sensação de medo que a figura fantasmagórica provocava. Baseada puramente na concepção visual, de usar uma referência teoricamente pura para agir de forma profana e propositalmente cínica, A Freira abdica de um desenvolvimento narrativo aprofundado com receio de perder a sensação que o espectador busca nas salas de cinema: o horror de aparência.

Ao contrário de outras produções do novo mestre do terror, James Wan, tais como Annabelle e Sobrenatural, que cultivaram suas próprias identidades à medida que chegaram às telas, A Freira sugere ser apenas um caça-níquel para demonstrar que, sim, o diretor malaio pode lançar qualquer coisa a nível mainstream que ainda gerará dinheiro para os grandes estúdios.

Ao escrever sobre Annabelle II para o Diário Catarinense, no ano passado, ressaltei exatamente a criação deste pote de ouro que James Wan fomentava em suas produções, com o acréscimo de novos personagens, os quais geravam franquias próprias e possibilidades futuras de crossover.

Desta forma, referências de outros filmes de horror produzidos neste modelo desencadearia uma sensação singular de familiaridade para o espectador, bem como uma impressão de uniformidade – de que aquilo era pensado desde início.

E se Invocação do Mal já apresentava duas possibilidades de franquia, A Freira e The Crooked Man, Annabelle II nos introduzia a figura do Espantalho, evidenciando que havia muitos mundos que seriam construídos de outros filmes. Num mundo em que a Marvel domina o cenário dos quadrinhos, Wan desbrava o terror como nenhum outro conseguia desde Wes Craven.

Por outro lado, se o efeito mercadológico é maravilhoso, a narrativa pode se perder no processo. De tal modo, A Freira é o primeiro golpe baixo de produções neste modelo, no qual a única intenção é criar cenas de sustos sem que exista qualquer coesão narrativa para que isso aconteça. Desde o primeiro minuto, é vexatório que Corin Hardy busque deixar claro que a única coisa que seu filme oferece é a conexão com a franquia Invocação do Mal, chegando ao cúmulo de uma “reprise” de cenas envolvendo a Freira no segundo filme.

Igual frustração geram as atuações de Demián Bichir e Taissa Farmiga, que pouco proporcionam em um filme que o máximo que se interessa por seus personagens é em dar explicações superficiais sobre o que fazem (“eu sou chamado pelo Vaticano para resolver problemas”).

É verdade que a intenção de Wan na produção seja dar um ar austero do horror italiano dos anos 70, como demonstra as associações de cores dentro do mosteiro, que podem lembrar sutilmente Suspiria, ou a densidade da floresta, que num momento específico, com seus tons azulados, pode fazer uma rima visual belíssima com Seis Mulheres Para o Assassino, de Mario Bava; porém, Hardy nunca parece compreender bem aonde quer chegar com isso.

Um exemplo é o uso de espelhos no longa-metragem, que parece sugerir algo (como é levantado num bar ou ao não refletir Irmã Irene quando ela chega na casa de Frenchie), mas se revela gratuito, além da graça proposital do filme que acaba soando exagerada pontualmente.

Sim, há cenas magníficas, como a de um Frenchie encurralado num cemitério, as comuns inversões de câmera durante aparições d’a Freira ou, a que considero a melhor delas, Frenchie caminhando entre freiras encapuzadas. Todavia, todas elas são impostas na trama para gerar sustos, não se preocupando estruturalmente com o que isso quer dizer para o desenvolvimento da história, algo incomum nas franquias até então propostas por Wan. Assim, A Freira sobrevive graças ao apelo visual de seu filme. Mas fica muito pouco para uma produção que alçava mais.

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