Trabalho com propósito: conheça empreendedores que mudaram a lógica do mercado em SC

Depois de séculos preocupados em atender nossas necessidades de subsistência, entramos em uma nova era de realização na qual sonhamos em trocar o dinheiro por um sentido na vida

Talissa Pires
Talissa Pires (Foto: Leo Munhoz/Diário Catarinense)

Na última década, muito se falou sobre mudanças nas relações de trabalho – atribuídas, na maioria das vezes, aos nascidos entre o começo da década de 1980 e meados dos anos 1990. Além de rejeitar hierarquias, ser adepta de processos colaborativos e não ter interesse em passar a vida em uma mesma empresa, a tal geração Y também tem um espírito empreendedor e vontade de inovar e fazer a diferença. No livro Como encontrar o trabalho da sua vida, o historiador e filósofo Roman Krznaric diz que o desejo de um trabalho que nos realize, nos dê um senso de propósito e reflita nossas paixões e valores é mesmo uma invenção moderna. Segundo o autor, depois de séculos preocupados em atender nossas necessidades de subsistência, entramos em uma nova era de realização na qual sonhamos em trocar o dinheiro por um sentido na vida. Com o surgimento de novas aspirações que vão além da estabilidade, profissionais inquietos saem em busca de um propósito maior que um bom salário na conta ao fim do mês.

Nessa busca não é preciso mudar de carreira – largar o atual emprego para se dedicar exclusivamente àquilo que faz o olho brilhar não é uma opção viável para todos e nem sempre necessária. A psicológica Sílvia Luz, coordenadora do programa Fellow Social Good Brasil – que constrói uma rede de protagonistas de mudanças sociais que atuam como uma espécie de embaixadores da organização de tecnologia para a transformação social – acredita que o propósito pode estar em qualquer área.

— Acho que as pessoas estão um pouco cegas para aquilo que elas já estão vivendo, pois estão sempre mirando um ideal. É sobre autoconhecimento, saber o que me deixa feliz e no que eu posso inovar. E essa inquietude é muito importante. Se eu estou numa empresa e não acredito em algumas coisas, ou se estou incomodada com os processos, o que me impede de eu tentar inovar ali mesmo? É o que a gente chama de intraempreendedorismo, empreender em algo que não é seu. É uma questão de olhar para você e tentar entender que a transformação vem nas mudanças do dia a dia — explica a psicóloga.

Quando o hobby norteia o propósito

Samuel é idealizador do Cidades Invisíveis (Foto: Tiago Ghizoni/Diário Catarinense)

Há quem descubra que pode ir além e impactar a comunidade a partir de uma paixão. É o caso de Samuel Schmidt, idealizador do Cidades Invisíveis, negócio social que usa a moda e a arte para ajudar a transformar a vida de moradores da Grande Florianópolis. Samuel fotografa desde a adolescência, mas formou-se em Direito e lecionou na área durante 10 anos. Enquanto conciliava o hobby e o emprego, nasceu o Cidades Invisíveis.

Há seis anos, fotografias feitas por ele em comunidades receberam intervenções de artistas locais e foram estampadas em camisetas – o lucro das vendas é revertido para as próprias comunidades ou causas sociais. O projeto cresceu e também já realizou atividades como contação de histórias e construções de casas, praças e hortas.

— Antes, éramos mais focado no assistencialismo. De 2017 para cá viemos tentando fazer impacto social de forma mais profunda, a partir da geração de trabalho e renda. Quero ser um exemplo de que é possível ter uma empresa sustentável e comprometida com o impacto social. Mostrar que dá para construir uma nova moda, com propósito, valores e ética — conta o empreendedor.

Hoje com 34 anos, Samuel não leciona e tem mais tempo para se dedicar ao projeto, mas ele tem um cargo público e divide o comando do Cidades Invisíveis com seu sócio, Daniel Esteves. Quando necessário, o projeto contrata freelas e também conta com voluntários.

— Depois de seis anos, ainda não tenho pró-labore. Tudo que a gente ganha é reinvestido na empresa e nos impactos sociais. Minha meta de vida é conseguir alcançar um nível de empoderamento da própria empresa para eu poder viver dela. Vejo pessoas da nossa geração pensando de forma diferente. Hoje queremos algo que nos faça caminhar com propósito, e isso vai construir um mundo mais saudável para todos — acredita.

A mais recente empreitada do Cidades Invisíveis é a incubadora Bonsai, que tem como objetivo criar oportunidades de trabalho para pessoas que vivem em comunidades. O Cidades Invisíveis alugou um bar na Frei Damião, em Palhoça, e o transformou em um espaço com estações de trabalho para que seja um ponto de encontro para troca de ideias e ações relacionadas à inovação, moda e entretenimento.

No espaço, já foram realizadas oficinas de bijuteria e bordado para mulheres. A ideia é que algumas sejam uma espécie de “alunas-modelo” e, além de aprenderem um novo ofício, possam passar o conhecimento adquirido adiante. No futuro também estão previstas atividades voltadas para o público masculino.

— O economista Muhammad Yunus diz que as pessoas pobres são como árvores bonsai. Não há nada de errado com a semente, e sim com o vaso onde ela foi plantada. Na Bonsai, a gente quer oportunizar — explica Samuel.

Um caminho sem volta

Talissa criou fundo social na Usina do Hambúrguer (Foto: Leo Munhoz/Diário Catarinese)

Ainda em Como encontrar o trabalho da sua vida, Krznaric dedica um capítulo à abordagem de cinco aspectos que, segundo o historiador, podem tornar um trabalho significativo: ganhar dinheiro, alcançar status, usar nossos talentos, seguir nossas paixões e fazer a diferença. A busca por propósito, portanto, vai além de fazer o que se ama — a possibilidade de atingir positivamente as pessoas que consomem seu serviço ou produto, o ambiente ao seu redor ou a sua comunidade pode ser um fator de motivação e satisfação para empreendedores.

— Quando encontramos algo que amamos e temos talento para fazer; pelo qual somos pagos; que o mundo precisa e nos chama para fazer, é muito recompensador. Acho que é aí que está o propósito, na união dessas coisas. Quando conseguimos conciliar, além de estarmos alinhados com o nosso propósito, entregamos alguma coisa para o mundo, mais do que para nós mesmos — explica Sílvia Luz.

Para Talissa Pires, sócia da Usina do Hambúrguer, da Capital, foi impossível ignorar o chamado. Em 15 de junho de 2016, na comemoração de um ano do restaurante, ela teve a ideia de, a cada hambúrguer vendido, doar um segundo para uma pessoa em situação de rua. Se normalmente a Usina vendia cerca de 50 sanduíches por dia, naquela noite foram comercializadas 340 unidades em menos de uma hora.

Durante a distribuição dos alimentos, que além de contemplar moradores das ruas da Capital também contou com uma ação na comunidade Chico Mendes, Talissa se comoveu e começou a pensar em como o negócio poderia impactar positivamente a sociedade. A jovem empresária, que desde quando cursava administração já não se identificava com o tradicional discurso sobre como vencer a concorrência e se dar bem no mercado, percebeu que a Usina poderia deixar de ser apenas uma loja de hambúrgueres para virar uma ponte entre quem quer ajudar e quem precisa ser ajudado.

Hoje, a cada hambúrguer vendido R$ 1 é doado para o Fundo Usina, que já apoiou mais de 20 projetos voltados para pessoas, animais e meio ambiente. O fundo de investimento social é gerenciado, desde 2017, pelo Instituto Comunitário da Grande Florianópolis (Icom), do qual Talissa é diretora de Inovação Social, e periodicamente são abertos editais para que organizações possam se candidatar e receber recursos — a votação final fica com os clientes do restaurante.

Há ainda atitudes extras que partem da inquietação da própria empresária, que tenta não olhar apenas para fora mas também para dentro da Usina. Uma das colaboradoras, por exemplo, é a haitiana Marie, que começou na limpeza e hoje trabalha na cozinha. Inspirada em um prato típico do país natal, ela desenvolveu um “pão” feito com banana da terra, que hoje faz parte do hambúrguer vegano. Agora, a cada unidade vendida com a iguaria, R$ 1 será destinado para um fundo especial que tem o objetivo de trazer a mãe de Marie para o Brasil.

Talissa também tem feito viagens para fazer voluntariado e conhecer outras realidades. Neste ano, ela foi para a Guiné-Bissau e para a Amazônia. No país africano, trabalhou com médicos, observou o mercado e pretende voltar com soluções para melhorar a vida da comunidade que a acolheu por lá. No segundo destino, ela conheceu a Euka, da etnia Baré, que comentou sobre o sonho de ser professora. Talissa disse que se a jovem quisesse estudar em Florianópolis teria emprego garantido na Usina. Uma outra voluntária ofereceu moradia e hoje a garota é a nova colaboradora do restaurante _ pelas redes sociais, ainda foi possível encontrar um cursinho pré-vestibular gratuito para que ela possa estudar e seguir seu sonho.

— Esse processo social é também um processo de autoconhecimento muito grande. Quando você entra nisso, não quer mais trabalhar 8h por dia para depois começar a viver sua vida, melhorar como pessoa e melhorar o seu entorno. É muito importante para mim que isso esteja integrado. Quando comecei a pesquisar quais eram os desafios sociais, vi que não tem como pensar em solução olhando de fora, tem que estar com as pessoas que vivem aquele problema. Pensar junto e fazer uma imersão é também entender que a gente não precisa de tudo que a gente acha que precisa. O serviço tradicional, o fazer sem propósito, não cabe mais na minha vida. Mas nada que é sem propósito cabe nela hoje — acredita a empresária.

Quando o propósito é ajudar os outros a encontrarem o propósito

Rodrigo Borges - Folga Truck
Rodrigo, do Folga na Direção (Foto: Zé Tomaz/Divulgação)

Comunicador, documentarista e empreendedor por trás do Folga na Direção, Rodrigo Borges também tem uma história de não conformidade com os padrões tradicionais do mundo dos negócios. O projeto existe há cinco anos e, como o próprio Rodrigo define, é um veículo de evolução coletiva – o objetivo é gerar conteúdos e experiências para fazer as pessoas refletirem se a direção que estão seguindo vai ao encontro do propósito delas.

O Folga na Direção tem dois braços principais. Um é o audiovisual, com vídeos, webséries e um documentário, ainda em fase de montagem, com histórias e pessoas inspiradoras e que ajudam o espectador a ter um novo olhar sobre as coisas. Há ainda o Folga Truck, um trailer que desde 2017 tem a proposta de gerar experiências transformadoras em eventos, e o curso online Foco na Direção, que já teve duas edições e ajuda as pessoas a descobrirem seu propósito e, com ajuda de ferramentas, colocarem ele no mundo por meio de projetos, negócios e iniciativas. Rodrigo também faz palestras e mentorias e tem um espaço de retiro e eventos relacionados a autoconhecimento em Ribeirão Preto.

— Tudo no lugar de empreender com propósito, expansão da consciência e ampliação da visão de mundo. Tem muita coisa além do sistema. Desde novo sempre fui criativo e intuitivo, a forma como eu via o mundo não era muito comum. Hoje percebo que era minha essência falando mais alto. Mas isso era motivo de chacota no mundo dos negócios anos atrás, aí eu negligenciei esse lado — conta o empreendedor, que depois de viajar o mundo e passar três anos no Rio de Janeiro, hoje mora em Florianópolis com a esposa.

O despertar veio após o falecimento do pai de Rodrigo. Na época, ele tinha uma loja de roupas em Ribeirão Preto que buscava aliar moda com arte, natureza e música. Com o tempo, Rodrigo percebeu que vendia um estilo de vida que, por empreender do modo tradicional, ele próprio não conseguia colocar em prática.

— Quando meu pai foi para o hospital e morreu, morreu para mim também o modelo antigo de trabalho. Ele me falava que era assim, que tinha que trabalhar de domingo a domingo para depois descansar. Minha vontade era sair do hospital e falar para todo mundo: tire folga na direção e repense o jeito que você tá vivendo. Meu desejo é que ninguém precise passar por uma dor tão profunda para encontrar seu propósito.

Festival Social Good Brasil

Nos dias 31 de agosto e 1º de setembro, Florianópolis recebe o Festival Social Good Brasil. Com o tema “Na era das tecnologias exponenciais, o que é ser humano?”, o evento vai reunir pessoas interessadas em voluntariado ou que trabalham com propósito social, empreendedores que trabalham com impacto e empresas que atuam com inovação social. É uma oportunidade para trocar ideias e se inspirar. O truck do Folga na Direção também estará por lá no dia 1º, recebendo uma roda de diálogo e um workshop sobre o tema do festival. O evento será transmitido online.

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