Tu te tornas eternamente frustrado pela expectativa que cultivas

A falta de expectativas aumenta o valor da realidade que recebemos - e percebemos

Punho de Ferro
Um dos exemplos é a série "Punho de Ferro" (Foto: Netflix/Reprodução)

O título deste texto é um clichê na internet – mas, das piadas manjadas das redes sociais, é uma das que me parecem mais verdadeiras. Sabe quando você imagina que algo (qualquer coisa: uma viagem, um livro, um show, um novo emprego) vai ser maravilhoso, e passa dias, semanas, meses alimentando esse sonho, essa antecipação de uma coisa incrível e inesquecível?

Nesses casos, geralmente, mesmo a mais sensacional das realidades acaba parecendo meio sem cor – comparada àquela expectativa que você, insensatamente, criou. Não à toa, quando algo é mesmo inacreditável, dizemos que “superou (até elas) as (muitas vezes cruéis) expectativas.” E o contrário também é válido: quando se espera pouco de algum acontecimento, quando não se imagina que vá dar em grande coisa, qualquer desdobramento parece bom. “Olha, até que não foi tão ruim.” A falta de expectativas aumenta o valor da realidade que recebemos – e percebemos.

Ano passado, com a estreia da série Punho de Ferro na Netflix, eu observei um fenômeno interessante: quando o seriado foi liberado para a crítica, a internet fervilhou com comentários negativos – pelos textos e postagens que vi, absolutamente nada de bom se salvava na série, do roteiro aos personagens, das atuações à produção. Alguns dias depois, a série chegou ao público geral – e aí vieram alguns comentários positivos: “ah, eu até gostei”, “não entendi por que falaram tão mal’, “na real é mais legal do que eu imaginava.”

Quanto desse “até gostar” foi, na verdade, motivado pelo fato de que o público, depois de ler as críticas, estava esperando uma série horrorosa? E se fosse o contrário? Se a crítica houvesse elogiado Punho de Ferro, talvez os comentários do público fossem outros: “nossa, que LIXO”, “esses críticos não entendem nada de série”, “na boa, é a PIOR série que eu já vi”. Simplesmente porque os elogios da crítica teriam jogado as expectativas lá em cima – e seria difícil corresponder a elas.

Também no ano passado, chegou aos cinemas A Torre Negra, filme inspirado na série de livros de mesmo nome escrita por Stephen King. Eu sou fã da série, que é sem dúvidas uma das melhores que eu já li – e, pelos trailers, imagens e informações divulgados do longa, fiquei com tanto medo do resultado que resolvi nem assistir. Mas eu brincava que achava que “vou odiar tanto esse filme que, na verdade, estou começando a achar que vou gostar.”

Minhas expectativas eram tão baixas que ia ser bem difícil que o filme ficasse abaixo delas – então talvez qualquer coisa fosse lucro. Nessa ocasião em particular, eu resolvi não colocar minha teoria à prova – mas talvez esse seja o segredo, no fim das contas: criar menos expectativas. Em relação a tudo nessa vida. E se deixar ser surpreendido pela realidade.

Na época, um amigo chegou a brincar comigo: “Se você quiser, eu posso fingir que vi A Torre Negra antes de você, e venho te falar que detestei.” Talvez seja mesmo uma boa ideia. E aí comentamos que, um dia, os críticos de cinema e TV (e literatura, e música, e gastronomia) não serão eventualmente pagos para falar bem dos produtos, e sim para falar mal – gerando uma boa reação do público, mais tarde. Mas espera aí – pensando no exemplo de Punho de Ferro… Será que isso já não está acontecendo?

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