Um corpo é um corpo

Com ou sem roupas, não há por que tratá-lo como algo de outro mundo

Foto: Pixabay

Eu fui uma adolescente que não gostava do próprio corpo: demorei mais que minhas colegas a amadurecer e ganhar curvas, a me livrar das espinhas, daquelas bochechas de criança. Me achava gorda, odiava meu nariz e minhas pernas – adorei quando a Avril Lavigne apareceu com a moda das calças de skatista, o que me permitia esconder as formas de que eu não gostava dentro de roupas bem mais largas do que as que eu precisaria vestir. De alguma forma, ainda bem, fui mudando esse ponto de vista conforme crescia e aprendia a gostar de cuidar de mim mesma – e conforme percebia que as outras pessoas não pareciam me achar assim tão feia: não podia ser que só eu tivesse razão e elas todas estivessem erradas, certo?

Simultaneamente, enquanto começava a ter coragem de usar roupas que deixavam minhas pernas de fora, eu desenvolvi uma mentalidade mais… Neutra, digamos assim, em relação à nudez: eu tinha problemas com meu próprio corpo por achá-lo feio, não por considerá-lo algo particularmente sexual. Não sei se é por ter crescido em uma família que trata o tema com naturalidade, sem uma mãe que troca de canal quando alguém sem roupa aparece na TV. Não sei se é por sempre ter dançado e participado de espetáculos (e, quando era bem mais nova, de competições esportivas), nos bastidores dos quais todo mundo troca de roupa sem se importar muito com quem está por perto. Não sei se é por ter muitos amigos que trabalham ou já trabalharam como fotógrafos ou modelos, e ter aprendido a ver fotografia de nu como algo mais artístico que erótico. Sei que um corpo nu não me causa grande espanto ou desconforto – e eu nem associo com algo pornográfico, censurável, vergonhoso. É natural. É como todo mundo é, uma vez removidos os disfarces.

Somando essas várias coisas, eu topei, ainda lá em 2012, a ideia de tirar a roupa pela primeira vez para as lentes de uma amiga, que estava começando a carreira no mundo da fotografia. Tudinho mesmo: apareci como vim ao mundo, e não vou fingir que foi exatamente super fácil. A parte de ver um corpo nu como algo absolutamente natural me ajudava, mas a parte de ainda não estar exatamente apaixonada pelo meu incomodava um pouco – dava vontade de encolher a barriga, esconder com o cabelo aquelas dobrinhas nas costas, me recusar a ficar de lado, para que aquela curvinha na parte superior do meu nariz passasse despercebida. Houve um desconforto, sim. Mas o desconforto sumiu depois, quando eu vi as fotos – e me achei linda. De verdade. Me olhei de fora, talvez como muitas outras pessoas já haviam olhado, e gostei do que vi. Mesmo com todos aqueles detalhes que antes eu costumava abominar.

Leia também: Projeto fotográfico feito em Florianópolis provoca reflexão sobre aceitação do corpo

Bem, a verdade é que de lá para cá eu brinquei de modelo algumas vezes, para amigos e conhecidos. Olha, não sou modelo profissional, e não tenho vontade nenhuma de ser – só gosto da brincadeira. Da sensação de se observar nas fotos, e ver uma beleza que normalmente é mais difícil encontrar no espelho. Claro que é uma maravilha ouvir elogios: eu fiquei super feliz toda vez que alguém viu uma das fotos e disse que eu – ou a imagem em si – estava linda. Mas, predominantemente, e com o perdão do clichê, sempre que fiz fotos, eu fiz por e para mim: é um hobby e uma terapia que pouca gente entende, mas que funciona – e para muita gente que, eu sei, também gosta de brincar de modelar por aí.

Digo que pouca gente entende porque, bem, infelizmente, é verdade: a maioria das minhas fotos não foi parar no Instagram nem no Facebook por medo da reação dos outros – o que o pessoal da empresa vai pensar? Minha família? Meus amigos? Bem, que ainda vivemos em uma sociedade ridiculamente machista não é novidade – mas é sempre, usando um eufemismo, desanimador lembrar disso. Meu namorado, mesmo, custou a entender tudo isso: mas por que, ele perguntava, você faz tanta questão de fazer essas fotos? Bem, eu não faço questão, eu só quero, porque gosto – assim como você gosta de jogar seu Battlefield. É um hobby. Eu me divirto. E é só por isso que eu faço.

Só é uma pena que eu ainda trate, por pressão velada ou não da sociedade, esse hobby como se fosse uma coisa meio criminosa: uma coisa escondida, que eu não costumo mostrar nas redes sociais, e sobre a qual eu não saio contando para todo mundo. Eu sinto que as coisas estão mudando um pouco, e aos poucos: no último ano, duas amigas minhas posaram, nuas ou não, para projetos diferentes; postaram no Facebook e receberam elogios e apoio de amigos, parentes e namorados. Achei lindo. Mudanças em uma direção positiva, de mente mais aberta e menos preconceituosa, são sempre vagarosas – mas sempre bonitas de se ver.

Leia outras colunas de Marina Martini:

Dance como se ninguém estivesse avaliando

Tenha uma irmã – se a vida não te deu uma, encontre uma você mesma