Um livro, um mestre e a espiritualidade nos ajudam a enfrentar nossa própria escuridão

Nas minhas horas de mais profundo enfrentamento lembro da minha oração e dos mestres que encontrei nos livros

Foto: Syd Wachs on Unsplash / Divulgação

Nem sabia que fazia tanto tempo que eu tinha lido o livro do Abílio Diniz, Caminhos e Escolhas, que foi publicado em 2004. Quando gosto de um livro compro uma quantidade grande dele e é meu presente de Natal e dos aniversários daquele ano. Foi o que fiz. Algumas das suas lições e reflexões continuaram me impactando, como a humildade para se mudar de opinião sobre suas próprias crenças – mesmo com dor e mesmo sabendo que, para o ser humano, “estar errado” sobre algo em que se acredita dói demais. Acredito que o homem que evolui é aquele que avalia suas próprias crenças e as enfrenta.

Eu queria ter sido o Jung na outra vida – ele foi um psiquiatra suíço bastante influente não só na sua área, mas também na literatura, na religião e seus estudos e na psicologia. Era um homem muito profundo e lúcido. É como se seus livros e suas frases expressassem o que eu sinto e me fizessem dizer: “é exatamente isso!”. Também senti que estava sendo entendida lendo Erich Fromm, Hermann Hesse, o próprio Abílio Diniz, Ralph Waldo Emerson e, sempre que leio o padre Fábio de Melo – esse, na verdade, é que deve ter sido o Jung. Eles comungam da noção de que o que vemos no outro é uma manifestação do que carregamos dentro de nós, e que conhecer nossa escuridão é a mais eficiente maneira de iluminar-se.

Não sei se o Abílio é tão filósofo, nem sei se é tão estudante como os outros que eu citei – e que talvez eu nem tivesse conhecido não fossem meus professores de mestrado. Professor Marinho, da Udesc, me inspirou para a leitura como jamais tinham feito comigo. Eu já estava com meus 25 anos, sem esperança de ser uma pessoa que gosta de ler – mas inspirada por ele fazia leituras comprometidas até do Schopenhauer – com esse não me reconheci tanto – mas eu estava no mestrado para isso: estudar, não para discordar ou concordar mas, para conhecer. E um debate desprovido da necessidade da certeza avança para o espaço da verdadeira sabedoria.

O Abílio falou de fé e me trouxe a Oração do Amanhecer – que faço diariamente desde então. Ela começa com “Senhor, no silêncio deste dia…”, mas não me obrigada a definir Deus, nem a usar “Senhor” como determinação do velho homem de barba. É uma sugestão de oração sobre o Deus que ele conhece. E que de alguma maneira reverberou em mim, como reverberam as frases do Jung.

Nas minhas horas de mais profundo enfrentamento lembro da minha oração e dos mestres que encontrei nos livros. E tenho com eles um diálogo em paz, para pensar respeitando minha natureza, assumindo a fé de que vale enfrentar minhas crenças mesmo que seja na direção do desconhecido.

Um livro, um diário, um bom amigo, a espiritualidade e um mestre, carregados pela noção de que o que vemos no outro, criticamos e julgamos é apenas uma projeção do que está dentro de nós é tudo o que precisamos para encontrar a iluminação e a força para enfrentar a nossa escuridão.