Ser um pouco filósofo é questão de sobrevivência: a outra opção é morrer de tédio

"Eu acho que a habilidade de se espantar com o cotidiano não é essencial apenas aos filósofos, mas a qualquer pessoa que queira passar por essa vida sem morrer de tédio."

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Por Marina Martini Lopes, jornalista da Itapema

Esses dias uma amiga minha chegou me contando, achando certa graça, na conversa que presenciou: um homem, maravilhado, contava ao outro como os pelos de seu braço haviam ficado em pé quando ele os aproximou de alguma outra coisa que, suponho, gerou eletricidade estática – o tal homem não sabia a explicação do fenômeno, e jurava que aquilo nunca havia lhe acontecido na vida! Ao contrário do que pode acontecer, minha amiga não me contou a história para zombar dele – e sim para observar como coisas essencialmente tão simples podem ganhar contornos fantásticos aos olhos de quem não conhece ou entende a lógica por trás deles. A tal explicação científica.

A história me lembrou um trecho de outra que eu li uma vez, em que o protagonista, de passagem por uma cidade do interior, ficava intrigado com o fascínio que um helicóptero causava em dois meninos que estavam vendo o veículo pela primeira vez. O personagem, na verdade, zombava da inocência e da “ignorância” dos garotos, que corriam pelo campo atrás do helicóptero, como se pudessem alcançá-lo – mas, depois, admitia que, no fundo, invejava um pouco a experiência daquele momento que, aos olhos dos meninos, fora quase mágico. Uma magia tão rara em seu próprio dia-a-dia.

Convenhamos: o mundo era mesmo mais mágico há alguns séculos. Deuses forjavam raios e trovões em suas moradas no céu, para jogá-los sobre a Terra em acessos de fúria. O mar era povoado por seres gigantescos, tão assustadores quanto fascinantes – quase tanto quanto aqueles que certamente viviam além da linha do horizonte, onde o mundo terminava em um abismo escuro. Anjos e santos apareciam para crianças, para dar conselhos e fazer profecias. E, se o ritual certo não fosse feito da maneira certa, a primavera poderia não voltar no ano que vem. Ou até mesmo o sol poderia se recusar a nascer no dia seguinte. Que perigo.

Eu e minha amiga, aquela lá do primeiro parágrafo, chegamos a comentar como, às vezes, um pouco de desconhecimento pode tornar certas coisas mais interessantes – não é chato quando você descobre que, sei lá, o Slender Man foi na verdade criado em um tópico de ficção de um fórum na internet (se você não sabia, desculpe por acabar com a graça)? Mas depois eu pensei melhor. E, sabe, não é que a ciência ou o conhecimento nos tirem a capacidade de enxergar maravilhas em tudo – somos nós mesmos, com o que fazemos dessa ciência ou desse conhecimento. Mais ou menos assim: você sabe que o Sol não gira em torno da Terra, e sim o contrário; e entende todas as leis físicas que possibilitam essa coreografia. Mas, pensando bem, não é incrível que nós estejamos todos vivendo em um pedacinho redondo de pedra, que flutua em torno de uma bola gigantesca de fogo, as duas presas uma à outra por uma força invisível que alguém entendeu por bem batizar de gravidade?!

Jostein Gaarder, o filósofo autor de O Mundo de Sofia (que, se alguém ainda não leu, certamente deveria), dá exatamente esse exemplo em seu livro: segundo ele, filósofo é aquela pessoa que fala “Ei! Olhem que incrível! Estamos todos flutuando em torno do Sol!” enquanto as pessoas à sua volta sacodem as cabeças e o chamam de maluco. Ser um filósofo é, na definição de Gaarder, jamais perder a capacidade de maravilhar-se – com o universo, a vida, seu próprio cérebro, as outras pessoas. Jamais perder a capacidade de se admirar, por mais que se cresça, envelheça, e se aprenda muitas coisas pelo caminho.

Eu acho que a habilidade de se espantar com o cotidiano não é essencial apenas aos filósofos, mas a qualquer pessoa que queira passar por essa vida sem morrer de tédio. A lua é linda e incrível, sim – mesmo que nós saibamos que não existe nenhum dragão vivendo nela. E, de vez em quando, é bom admirar o céu, apontar para a lua e comentar, em voz alta: “Olha a lua!” Alguns vão sacudir a cabeça e achar você um idiota, como o protagonista da história dos meninos e do helicóptero. Mas outros, talvez mais filósofos, vão se admirar com você. E é para estes que a vida jamais vai perder a graça. Com ou sem explicação científica.