Marcos Piangers: um texto irresponsável

Foto: Pexels

Essa é uma história real.

O telefone tocou no escritório. Um garoto quer falar com você, me disse um colega. Transfere. Alô. … Alô. … É o Marcos Piangers? Sim. Não acredito que estou falando com o Marcos Piangers. Está. Meu Deus, não acredito! Como é fácil falar com o Marcos Piangers. Ok, cara. Era isso? Não! … Eu quero saber uma coisa: eu trabalho em algo que eu odeio. Eu odeio meu emprego. Meu sonho é trabalhar com produção de vídeos. Você acha que eu devo pedir demissão?

Abre parênteses. Acho que naquele dia eu devia estar muito inconsequente. Fecha parênteses. Você odeia seu emprego? Sim. Você quer fazer outra coisa? Sim. Você é novo e tem família pra te ajudar? Sim, moro com meus pais. Então, acho que você deve pedir demissão hoje mesmo e ir atrás do seu sonho. Sério? Sério. O…Ok… Ok. Obrigado. De nada. Tchau. Tchau.

Oito meses depois. Recebo um email do garoto que me ligou. Dizia, em outras palavras, o seguinte: “Piangers, depois daquela ligação cheguei no meu emprego e realmente pedi demissão. Fui o herói de mim mesmo. Saí de forma gloriosa por aquela porta, para qualquer cosia que a vida me reservaria. Durante meses, entreguei meu currículo em agências e produtoras de vídeo. Nenhuma me respondeu. Por um tempo ia em entrevistas de emprego apenas para comer a bolacha e tomar o café que oferecem nesses lugares. Comecei a ficar meio desesperado. Até que um dia uma produtora me ligou. Comecei a trabalhar com o que eu amo, aprendi técnicas, com meu primeiro salário fiz um curso online. Em algum tempo estava pegando trabalhos mais legais, ganhando mais dinheiro. Hoje eu trabalho com o que eu amo. Estou muito feliz. Obrigado por ter atendido aquela ligação”.

Quando li o email fiquei boquiaberto. Como eu tinha tido a irresponsabilidade de dizer pra um jovem ir atrás do seu sonho? Ele deveria ter batalhado por 65 anos em um trabalho que odeia, como todo mundo faz.

Lembrei dessa história quando perguntei pra um amigo como ele conseguiu o emprego dos sonhos: viajar o mundo fazendo imagens de surf. Ele disse que anos atrás estava trabalhando em um escritório, matando tempo, olhando vídeos no computador. Até que viu um vídeo de um surfista. Um vídeo de 45 segundos, mostrando as praias que aquele surfista tinha passado no último mês. Ele viu aquele vídeo de 45 segundos, se levantou, pediu demissão e foi embora. Não sei se pra cada vitorioso deste temos mil fracassados. Só sei que, sempre que um telefone tocar e alguém dizer que odeia seu emprego, eu vou recomendar o enfrentamento deste medo. Esse frio na barriga. Você saindo pela porta da empresa. Vamos ver o que a vida lhe reserva.

Leia mais:

Veja todas as crônicas de Piangers para a Versar