Vinhos verdes de Portugal são os mais exportados depois do vinho do Porto

vinho verde
Fotos: Arquivo Pessoal

Fora de Portugal, quando falamos em vinhos verdes, pensamos em vinhos frescos, ligeiros, refrescantes e com uma característica especial, agulhadinhas na língua, que no início nos remetem a um espumante, mas que logo desaparecem. Este efeito é originário da fermentação malolática, que acontecia antigamente nas garrafas, quando a produção ainda não era muito bem dominada e controlada pelo homem.

A malolática ocorre com a chegada da primavera, de forma espontânea, sendo uma segunda fermentação. As bactérias lácticas atacam o ácido málico e o “transformam” em ácido láctico, com menos poder ácido. Seria como transformar suco de limão em leite, dando assim um toque mais “macio” ao vinho. Um dos produtos desta fermentação é o gás carbônico, ou a famosa agulha, característica dos vinhos verdes do passado.

Conhecendo os vinhos verdes

Saindo da cidade do Porto, alugamos um carro e fomos em direção a mais famosa região produtora de vinhos verdes, Monção e Melgaço. Bem ao Norte, as duas cidades que se confundem como uma só, permitem que o visitante em menos 10 minutos consiga passear entre vinícolas das duas regiões. Do lado direito do rio temos Portugal e do lado esquerdo Espanha.

Monção e Melgaço
Monção e Melgaço
Ficamos hospedados em um antigo Convento em Monção, chamado Convento dos Capuchos.

A caminho de Monção, passamos por Ponte de Lima, a primeira vila portuguesa com muita história e comida típica, que logicamente é acompanhada de um bom vinho verde.

Paramos no restaurante Alameda e provamos o arroz de sarrabulho (feito com sangue de porco) com Rojões, uma comida pesada com base em carne de porco e seus “miúdos”. Este prato é considerado patrimônio gastronômico da região do Minho.

​O vinho verde, de Ponte de Lima (uma das nove sub regiões produtoras), veio em uma jarra de meio litro e com a característica típica do vinho verde que conhecemos, borbulhando na taça, saindo de um vinho tranquilo para um frisante.

Na região do Rio Lima, é muito comum blends de Alvarinho, que possui características de frutas amarelas maduras como pêssego, manga e abacaxi, com a uva Loureiro, que é mais floral. Esses vinhos custam de 1 a 3 Euros. Mas nem todos os vinhos verdes possuem este gás e carregam este preço.

Para entender melhor sobre este ícone português, fomos até a vinícola Soalheiro, em Melgaço, onde fomos atendidos pela responsável da adega, Lucia Barbosa.

Lucia nos deu uma aula e tirou muitas dúvidas que tínhamos em relação à legislação e sobre o que é realmente um vinho verde.

A região dos vinhos verdes é delimitada por esta área no mapa e consiste em nove sub regiões, sendo Monção e Melgaço a pioneira e a mais importante.

Esta região demarcada de vinhos verdes, constitui uma Denominação de Origem Controlada (DOC) que foi criada em 1908, e que fica entre os rios Douro e Minho.Após um passeio entre os vinhedos, entendemos que as uvas da região demarcada como vinho verde, vem em sua maioria de pequenos produtores, pois as terras vão sendo repassadas em partes iguais de pais para os filhos. Isso faz com que muitas pessoas tenham um pequeno pedacinho de terra e que produzam uvas para as cooperativas. Esta cultura fez com que a região trabalhassem em forma de cooperativismo, onde grupo de produtores vendem suas uvas para as vinícolas.

Este trabalho é acompanhado de perto pelas empresas que levam rígidos processos de produção aos colaboradores. Ao final da colheita, o produtor leva as caixas até a vinícola, o produto é analisado e se tiver dentro dos padrões da empresa, este recebe o pagamento e entrega as uvas, que vão direto para o processo de produção do vinho.

Esta foto abaixo, tiramos com as vinhas de mais de 40 anos de idade, que produzem o vinho Soalheiro primeiras vinhas.

A uva chefe, a “menina dos olhos” da região dos vinhos verdes, se chama Alvarinho. Sendo uma das cepas de menor rendimento do mundo, seus bagos são pequenos e de película grossa. Cem kilos rendem menos de 50 litros de vinho. Uma uva que carrega frescor, muito frutada e tem um potencial de envelhecimento enorme em garrafa.

A degustação

Provamos um vinho de 1999, ou seja, com 20 anos de idade, que mantinha ainda uma excelente acidez, trocando os aromas frutados, por castanhas, compotas, dando uma complexidade incrível não muito comum a um vinho branco.

​Veja a diferença de coloração para o mesmo vinho e mesmo processo de produção. O da esquerda parece que foi para barrica certo? Errado, resultado de 20 anos em garrafa.

Lembre-se, vinhos tintos perdem coloração com o tempo, e os brancos ganham cor com o passar dos anos em garrafa.

vinho verde
Fotos: Arquivo Pessoal
Note que para levar a palavra Alvarinho no rótulo, o vinho precisa ser 100% Alvarinho e ser produzido e vinificado na região de Monção ou Melgaço.

Mas e a questão do gás no vinho?

Antigamente, como já comentamos, isso se dava pela fermentação malolática em garrafa, que gerava uma leve gaseificação, que acabou caracterizando os vinhos verdes. Hoje, com técnicas controladas, isso já não acontece mais naturalmente e os produtores injetam um pouco de gás no vinho, para tentarem replicar o processo que acontecia antigamente.
A fermentação malolática faz com que o vinho ganhe em algumas características, mas a perda de acidez e de aromas frutais, fez com que as empresas evitassem a malolática e apenas acrescentassem gás no final do processo.
Geralmente apenas vinhos de mais baixa qualidade acabam recebendo este gás. Um vinho verde, 100% Alvarinho, das regiões de Monção e Melgaço, raramente levam o gás, pois iria mascarar a elegância que a uva traz a seus vinhos. Na vinícola Soalheiro, por exemplo, nenhum vinho recebe a adição de gás.
Provamos uma gama de vinhos verdes, que passou de vinhos ligeiros, a vinhos naturais, até a espumantes. O clássico da casa é o Soalheiro Alvarinho, 12.5% de álcool, seco e que carrega aromas de frutas tropicais.
O mesmo vinho Alvarinho, colhido de plantas mais altas, acima de 200 metros de altitude, gera um vinho específico, altamente mineral e salino, chamado Granit. Este vinho expressa bem o solo de granito, característico de Melgaço. A degustação foi acompanhada de um excelente embutido chamado fumeiro, produzido com porcos da própria vinícola.
A empresa é arrojada, produz também um Alvarinho Reserva, onde a fermentação e envelhecimento são feitos totalmente em barrica de carvalho, gerando um vinho elegante e encorpado.
Soalheiro conta com ovos de concreto e vasos de terracota, como uma diversificação na arte de vinificar, que facilitam o movimento da bebida durante a fermentação, sempre buscando mais estrutura e volume para seus vinhos.

Em Monção e Melgaço, dias quentes e noites frias, permitem que os aromas se mantenham frescos e frutados com uma acidez moderada. Existe a linha natural da empresa com vinho sem adição de sulfito e fermentação espontânea chamado Soalheiro Nature.

Seguindo esta linha dos naturais, criaram o Soalheiro Terramatter, que segue o conceito bio e não é filtrado. Este vinho possui a característica de ser colhido mais cedo que os outros, o que permite uma fermentação malolática parcial em barris de castanheira.

Quanto aos espumantes, a empresa usa leveduras encapsuladas (não criam aquela nuvem de leveduras no vinho) e muitas vezes não usam o processo de Degorement, deixando a levedura dentro da garrafa. Este processo foi uma invenção portuguesa e está revolucionando o mercado dos espumantes.

A tradicional escola francesa não tem “nada contra” as chamadas leveduras domadas, mas aconselha que não seja usado no rótulo “método tradicional”, pois segundo alguns enólogos, o espumante resultante deste processo, não tem a mesma complexidade e longevidade, nem o gás atinge a mesma pressão.

Entre os espumantes, que são feitos pelo método tradicional, o destaque fica para o Bruto Barrica, 100% Alvarinho, que passa por 12 meses em carvalho antes da segunda fermentação, ficando mais 36 meses em garrafa antes de ir ao mercado.

Finalizamos esta aula de vinhos verdes, com um belo bacalhau, acompanhado do ícone da empresa, Alvarinho Soalheiro.

Existem algumas outras vinícolas ícones e históricas na região, que podem ser visitadas como a Adegas de Monção, do famoso muralhas de Monção e o Palácio da Brejoeira, que foram os pioneiros na região. Porém, se você quiser ter uma experiência VIP, e ter uma experiência completa, deve colocar a Soalheiro no topo de sua lista.

O site da empresa, caso queira visita-los, é este: https://www.soalheiro.com

Se você quiser provar diferentes tipos de vinhos verdes, pode optar por wine bars (não são muitos) ou passar em um supermercado e levar alguns exemplares para o hotel.

Como saber se o vinho tem gás ou não?

Não se sabe! Existe algumas indicações, mas isso não está explícito no rótulo. Se constar a palavra Alvarinho no rótulo, provavelmente o vinho não tem gás adicionado, pois será um vinho mais caro e elegante. Se for um vinho mais barato, deve ser um blend e a chance de adicionarem gás é maior. Se você busca pelo efeito “agulha”, vai encontrá-lo mais em vinhos que não seja 100% Alvarinho, mais comuns com a casta Loureiro ou nos blends.

Alguns produtores colocam no contrarrótulo, “uma ligeira adição de gás carbônico”. O ideal é comprar um vinho bem barato, menos de dois Euros e um “bem caro” de 15 euros, para você sentir a diferença que tentamos mostrar neste post.

O Muralhas de Monção, famoso por todo o país, custa cerca de 4 euros, tem a DOC de vinho verde, mas não Alvarinho no Rótulo, ou seja, é um blend de Alvarinho e Trajadura, e apesar de não estar especificado pela empresa, parece ter um pouco de gás adicionado, característico dos vinhos verdes mais populares. Este vinho é o vinho verde mais consumido no mundo.

Existem vinhos verdes brancos, tintos, rosés e espumantes, vinagre de vinho verde e até a Bagaceira, uma aguardente de vinho verde.

Em resumo, vinhos verdes são os produzidos pela região Vinho Verde, ou seja, não são verdes, e podemos até encontrar exemplares tintos. Os melhores, não levam gás.

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