A violência, mesmo quando acontece entre quatro paredes, atinge a sociedade inteira

Foto: Jim Hendew / Morguefile

Conscientemente ou não, todos nós sentimos necessidade de deixar a nossa marca: uma vida passada em branco não empolga. Alguma coisa de nós tem que permanecer, e a feitura de filhos tem dado conta deste propósito, mas, depois de tê-los, descobrimos que filhos não são uma extensão de nós, e sim criaturas independentes. Não servem de dedicatória para o mundo.

Uma vez escrevi sobre as pichações que vemos estampadas tanto em muros baixos como em prédios altos. Há uma quantidade enorme de jovens que se arriscam para desenhar ou escrever qualquer bobagem, em lugares bem visíveis, sem se importar com a imundície e com a violação do espaço público. É a dedicatória deles: “Para a cidade, com o meu desprezo”. Grafiteiros, ao contrário, são artistas, deixam sua marca para a cidade com criatividade e brilhantismo. O pichador deixa um recado, apenas: também existo, mesmo que você não me veja nem saiba quem sou.

Tenho me perguntado a razão de a violência urbana continuar aumentando. Tráfico de drogas, pouco investimento em educação, ausência de policiamento, corrupção, famílias desestruturadas, cultura desprestigiada, ignorância. As explicações trafegam por este universo de carências e deságuam no ego: todos se sentem especiais e querem que o mundo os conheça. Há duas maneiras de existir: fazendo coisas bem feitas ou coisas malfeitas, sendo produtivo ou sendo destrutivo, respeitando as leis ou desafiando-as. Seja qual for o caso, chamar a atenção é o objetivo.

A violência, mesmo quando acontece entre quatro paredes, mesmo quando é contra uma única pessoa, ela atinge a sociedade inteira. É, portanto, uma assinatura. Estamos vivendo com tão poucas oportunidades de realização que a brutalidade é hoje um ato desesperado para se tornar visível. E, como se sabe, é mais fácil ser ruim do que ser bom. “Foi tudo muito rápido”, dizem todos os que testemunharam uma tragédia. É rápido mesmo. A pulsão do mal é instantânea, desestabilizar não requer nenhuma sofisticação, nenhum nível de consciência, nenhum preparo. Um soco, um tiro. Tá feito.

A paz vem da sensação de termos uma identidade própria e de sermos reconhecidos por ela. Deveríamos bastar para nós mesmos, fazer aquilo que consideramos certo e justo sem se preocupar com a opinião alheia, mas a indiferença é a pior das solidões. Queremos que os outros vejam o que sabemos fazer, e se não houver oportunidade de trabalhar, de realizar um projeto elogiável, de praticar um esporte, de fazer parte de um grupo bacana e manifestar as próprias ideias, a pessoa não ficará em casa curtindo sua invisibilidade. Ela fará o outro enxergá-la na marra, nem que seja provocando dor.

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