Volta às aulas: Atitudes dos pais são importantes para adaptação das crianças na escola

Segundo a Associação Catarinense de Psiquiatria, pelo menos 50% das crianças podem ter sintomas de ansiedade no período que antecede o retorno às escolas

O papel dos pais é fundamental nesse processo de transição (Fotos: Marco Favero)

Alice Laffin Castoldi tem seis anos e já vai enfrentar um dos maiores desafios da sua vida. O novo ano começou com uma novidade que vai obrigá-la a aprender a lidar com mudanças: a troca de escola. A partir de fevereiro, a pequena estudante vai começar a frequentar uma instituição maior, com novos colegas e novos professores.

— Mesmo que eu vá para outra escola, eu vou continuar sendo amiga dos meus outros amigos — afirma.

A certeza de que “vai dar tudo certo” na nova escola veio do apoio dos pais. Segundo Adriana Laffin, mãe de Alice, o processo de troca de escola começou meio ano antes, com incentivos, conversas e a liberdade de uma escolha democrática.

— Nós levamos ela junto em todas as escolas que pensamos em matricular. Ela conheceu os ambientes, os professores, e a palavra final foi dela. Claro que direcionamos as escolas de acordo com nossas questões financeiras e apresentamos argumentos para ajudá-la nessa decisão, mas deixar ela participar foi a parte mais importante desse processo – afirma Adriana.

Para a pedagoga do colégio onde Alice vai estudar, essa fase de transição é delicada e precisa de adaptação das três partes: da criança, dos pais e da escola, que passa a receber um novo aluno.

— Separamos uma semana de aula, antes do início do semestre, para a criança começar a criar um vínculo com os professores. Os alunos novos permanecem na escola fazendo atividades para conhecer um pouco do que vai ter durante o ano, com aulas de artes, música… E é um processo gradativo. Se em uma semana o aluno ainda não estiver adaptado, refazemos esse processo com o acompanhamento de uma psicóloga – afirma Clélia.

A resistência na adaptação dos alunos é mais comum quando é a primeira vez que vai à escola. Segundo a presidente da Associação Catarinense de Psiquiatria, Lilian Lucas, pelo menos 50% das crianças podem ter sintomas de ansiedade, que não causam comprometimento significativo,  nesse momento de ir para a aula porque é um momento bastante vulnerável.

— Algum grau de ansiedade nesse momento é normal, como parte de desenvolvimento da criança. Mas muitas vezes isso ultrapassa o que se espera da faixa etária e aí a gente começa a falar de um transtorno de ansiedade de separação. Nesses casos, a criança pode ter sintomas físicos, como na hora de ir para escola ter dor de barriga, enjoos, tremores, suor, sintomas comuns em quadros de ansiedade.

Importância do apoio dos pais

Quando o quadro de ansiedade se intensifica é muito importante a atenção dos pais. Segundo a psiquiatra Lilian, muitos responsáveis entendem esse momento como “drama”, ignorando os sinais e provocando sintomas futuros.

— Tem pai que acha que é uma bobagem, que é manha da criança, ou todo aquele preconceito que cerca qualquer transtorno emocional, e nega. Mas muitas crianças que têm esse transtorno têm um risco bem maior de desenvolver um outro quadro de ansiedade e até quadros depressivos na idade adulta.

Segundo a especialista, algumas crianças chegam a ficar meses sem frequentar a escola e, só então, os pais procuram ajuda. Ainda assim, ela reforça que o tratamento é bastante promissor.

— O tratamento pode ser até mesmo com abordagens psicoterápicas e orientação para pais e escolas. Medicação pode ser necessário em casos mais graves, mas a criança tão logo vai ter uma vida normal.

Para ajudar nesse processo, Lilian separou algumas dicas.

Confira:

  • É importante prover para a criança um ambiente flexível, para ela se sentir segura se quiser voltar para casa.
  • Os pais precisam ouvir o sentimento da criança com empatia
  • Mantenha a calma para falar com a criança e entender esse momento
  • É bom lembrar a criança que ela já superou outras situações de ansiedade e que no final tudo ficou bem
  • Vale ensinar técnicas simples de relaxamento como respiração profunda para ela saber o que fazer se estiver sozinha e sentir os sintomas da ansiedade
  • Apoiar a criança e encorajar a participar de atividades fora de casa.
  • Em situações mais graves, é bom solicitar na escola que sempre a mesma pessoa busque a criança na porta
  • Os professores podem ajudar a identificar um local seguro dentro da escola para a criança ficar quando estiver ansiosa, como na sala da coordenação ou com algum responsável de confiança da criança. É bom ter um adulto para a criança pedir conforto nesse momento de mais ansiedade.
  • Não deixar a criança ficar em casa apenas para evitar stress. Insista em ir para a escola e procure ajuda profissional.

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