Volvo Ocean Race: conheça 4 mulheres da Vila da Regata

Foto: Arquivo Pessoal/Ainhoa Sanchez

Conheça quatro mulheres inspiradoras que estão, de diferentes maneiras, envolvidas com a Volvo Ocean Race durante a passagem da maior regata do mundo por Itajaí.

Fotografe como uma mulher
Ainhoa Sánchez

A fotógrafa espanhola Ainhoa Sánchez entrou no mundo da vela em 2008, depois de fotografar uma equipe feminina espanhola e se dar conta que queria se dedicar a isso para o resto da vida.

— A Volvo Ocean Race não era para mim nem um sonho. Era algo que nem considerava alcançar ao longo de minha carreira. E agora, estou aqui! — comemora.

É a terceira vez que Ainhoa participa da cobertura da maior regata do mundo, e a segunda que ela vem a Itajaí. Para ela, a melhor parte de viajar o mundo fotografando o evento é ver como a regata se forma, a chegada das novas equipes e dos novos marinheiros, acompanhando tudo desde o começo.

— É poder contar a história de tudo que essa regata implica e significa para cada uma das diferentes partes que a formam — completa.

Claro que há desafios. Um deles é o cansaço de ficar quase nove meses viajando e trabalhando sem parar, tendo que reunir forças quando a motivação e a criatividade já não são mais as mesmas do início. Outro é ser uma das únicas mulheres no ramo.

— A verdade é que tenho que dizer que não é fácil. Não somos muitas as que trabalham no mundo da vela profissionalmente. Isso não significa que tenham me tratado mal, mas acredito que temos que mostrar muito mais o que valemos. Com a mudança que a VOR incorporou na vela oceânica, com a inclusão das tripulações mistas, espero que tudo comece a mudar para melhor — finaliza.

Guerra ao plástico
Fernanda Daltro

Foto: Marcos Porto / Prefeitura de Itajaí

Fernanda é envolvida com temas relacionados ao meio ambiente há mais de 15 anos. Trabalhou no Ministério do Meio Ambiente e há cinco anos está na ONU. Atualmente, trabalha na campanha Mares Limpos – que tem parceria com a Volvo Ocean Race e foi aderida por Itajaí durante a passagem da regata pela cidade.

— Ainda que os temas das campanhas da ONU Meio Ambiente sejam variados, acabo sempre trabalhando a temática do consumo sustentável. A Mares Limpos é voltada para redução da poluição plástica nos oceanos. E quais são as formas de reduzir isso? Mudando o padrão de produção e consumo — explica.

A campanha global foi lançada em fevereiro 2017, e o Brasil aderiu a ela em setembro. Segundo Fernanda, a VOR é uma parceria estratégica – por ser a maior regata do mundo, atrai milhões de pessoas e ajuda a levar o tema para um público maior, especialmente durante as paradas. Em Itajaí, mais de 20 ações em prol da limpeza dos oceanos foram realizadas durante a passagem do evento pela cidade, muitas delas de conscientização.

— Existe uma parcela da população muito interessada no tema, mas do outro lado estão pessoas individualistas que não querem abrir mão do conforto, ou que são desinformadas e sequer tiveram contato com essa questão. Uma das minhas maiores bandeiras é a sacola plástica. Um item absolutamente dispensável que causa males absurdos e chega a causar morte de animais. São mudanças pequenas, que se contabilizadas fazem uma diferença imensa. Temos que lutar contra o sistema, que te impõe muito descartável — finaliza.

Solucionadora profissional
Débora Rosa Tarantino

Foto: Maria Muiña/Mapfre

Há 20 anos, Débora Rosa Tarantino está envolvida com a regata. A paulistana, que mora há 10 anos na praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú, já fez e faz tanta coisa durante o evento que é até difícil definir uma função ou explicar seu trabalho.

— Sou uma pessoa que resolve muita coisa. Não dá para dar um título, sou tudo e não sou nada — resume.

Nos anos 1990, ela morou nos EUA, onde trabalhou com manutenção de barcos e velejava frequentemente. De volta ao Brasil, ela trabalhou com a equipe Chessie Racing Sailing Team na edição 1997/1998 da Whitbread, como a maior regata do mundo era chamada na época. Desde então, ela esteve envolvida em mais seis paradas brasileiras da VOR, prestando serviços para equipes de velejadores e para a organização do evento. Nesta edição, como freelancer, foi uma das responsáveis pela montagem do pavilhão da Volvo na Vila da Regata e está produzindo eventos para a equipe Vestas.

— A dinâmica do evento é sensacional. Uma regata volta ao mundo onde tudo tem tempo certo para acontecer em altíssimo nível é coisa de estrangeiro. Nós temos ainda muito o que aprender, a sensação é de estar a anos luz deles — comenta.

Débora é modesta. Claro que o profissionalismo dos estrangeiros impressiona, mas não é “coisa de gringo”. Logo em sua estreia na regata, por exemplo, ela teve a missão de pegar uma vela no Aeroporto de Guarulhos e levá-la até São Sebastião em tempo para a largada dos barcos, uma operação de risco porque qualquer imprevisto na estrada poderia atrasar a entrega.

— Ainda me arrepia só de pensar. Mas deu tudo certo. Acho que 20 anos depois ainda continua dando, pois sempre fui indicada de uma regata para outra por alguém da equipe anterior. Foram muitos momentos marcantes. Na edição de 2014/2015, foi a primeira vez que trabalhei para uma equipe totalmente feminina e coincidiu com o fato de eu ter ficado grávida da minha primeira e única filha quando já estava contratada, um ano antes. Quando os barcos chegaram, ela era um bebê, e foi ainda mais gratificante estar com a equipe das mulheres naquele ano. Todas me deram muito suporte para que eu a levasse em todos os momentos necessários — finaliza.

A primeira brasileira
Martine Grael

Foto: Pedro Martinez/Volvo Ocean Race

Campeã olímpica, Martine Grael é a primeira mulher brasileira a participar da regata. Integrante da equipe holandesa AkzoNobel, a atleta de 27 anos vem de uma família dedicada ao esporte – seu pai, Torben Grael, é considerado o maior velejador brasileiro de todos os tempos. E foi com a mãe Andrea Soffiatti que ela começou a velejar.

— Minha primeira memória a bordo de um veleiro é com minha mãe, velejando pela Baía de Guanabara junto com meu irmão. Era verão, a gente pulou dentro da água, passou perto do forte, foi um passeio, mesmo — relembra.

A velejadora chegou a Itajaí no dia 5 de abril, 18 dias depois de deixar Auckland, na Nova Zelândia. Recepcionada pela família, ela foi até o Rio de Janeiro, onde nasceu, para descansar antes de seguir para a próxima etapa, em Newport, nos EUA. Ela voltou para Itajaí para participar do Seminário “O futuro dos Oceanos: combate ao lixo no mar”, na quarta-feira (18), ao lado da gerente de campanhas da ONU Meio Ambiente Fernanda Daltro.

— Essa minha parada foi muito boa, fazia um ano que eu não voltava para casa. Fui para a Serra aproveitar um pouco de água doce, que eu também adoro, encontrei amigos. É boa a sensação de estar em casa, com a família. Encontrei também meu irmão que eu não via há muito tempo. É bom para ganhar energias para seguir adiante.

Martine espera que sua participação na VOC ajude a inspirar outras mulheres a seguirem no esporte, e acredita que isso só foi possível graças às novas regras da regata que promovem a inclusão feminina – equipes mistas podem ter mais pessoas do que as equipes totalmente masculinas.

— Essa regra foi muito controversa. Óbvio que para os homens foi difícil de aceitar ter mulheres a bordo. Para mim, foi uma oportunidade incrível, sem essa regra eu não conseguiria chegar nessa regata que era um sonho. É chato que tenha que precisar dela para a gente fazer a regata. É complicado conviver a bordo, mas nosso time tem lidado muito bem. Espero que isso abra muitas portas — completa a velejadora.


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