Estressado? Que tal parar e apreciar uma xícara de chá?

André Alves, escritor, consultor e pesquisador de tendências, fala de sua relação com a bebiba

Fotos: Erika Garrido/Divulgação

André Alves, escritor, consultor e pesquisador de tendências, que vive entre São Paulo e Nova Iorque, recentemente aterrissou em Blumenau para uma palestra do Santa Catarina Moda Contemporânea (SCMC) e deixou empresários e universitários eufóricos, sem ar e impactados com a velocidade das transformações digitais e que estão acontecendo e mudando o varejo no mundo.

Fazendo a plateia refletir, questionou: “E agora, que rumo tomar?”

Encontrei no próprio perfil pessoal do André uma resposta: uma xícara de chá. No final, perguntei a ele qual a relação com o chá. Fiquei intrigada com aquele perfil que distanciava do homem agitado, incansável e ansioso que estava sob os holofotes.

Há mais de 10 anos no mercado resolvendo desafios de marketing e branding, com ênfase em comportamento e cultura, André é apaixonado por cinema, livros e trocaria qualquer coisa por uma boa xícara de chá. Você pode segui-lo em @reflektory e @realmrtea. Confira as respostas de André:

Um pouco da relação com chás

“Um mestre chinês costumava dizer que o chá tem o poder de relaxar o ego. Eu sinto isso no meu dia a dia. Acho que as melhores conversas que já tive na vida começaram com uma xícara de chá. Não sei se é por causa do sabor, do ritual de escolher-preparar-servir, ou se é tudo isso junto. O que eu sei é que quando a água quente toca as folhas, além de ‘abrir’ o aroma e o sabor, também abre a sensibilidade das pessoas. Sensibilidade é, na minha opinião, a base de qualquer trabalho criativo. Por isso esse ritual é tão importante pra mim. Vivemos em um tempo em que a velocidade nos coloca num estado tão reativo que, muitas vezes, deixamos de prestar atenção nas coisas, de sentir o universo ao nosso redor. O chá tem o poder de me trazer de volta para o presente e para o contato comigo mesmo. Troco qualquer coisa por uma boa xícara de chá.

O ritual de preparar, servir e tomar chá desperta a minha sensibilidade e também me lembra que o silêncio diz muito. Clarice Lispector falava sobre encontrar o que estava ‘atrás do pensamento’, ou seja, o que não está dito e que precisa ser capturado através de interpretações mais sensíveis. O estado meditativo em que uma xícara de chá me coloca é uma forma de lembrar e exercitar tudo isso. O meu trabalho é sobre capturar o espírito do tempo, sobre entender o que as pessoas estão sentindo ou querendo, o que nem sempre é muito fácil de traduzir em palavras. Muitas vezes o grande aprendizado ou insight está exatamente no que o entrevistado não está me dizendo, no que ninguém consegue enxergar em uma referência ou sinal de futuro. Daí a importância de interpretar tanto o que está sendo dito quanto o ‘não-dito’.

Eu sou muito ansioso e no meu trabalho é comum deixar-se levar pelo excesso – mais informação, mais referências, mais dados, mais, mais, mais. Mas informação demais pode paralisar as pessoas. Assim como referências de menos podem fazer com que o trabalho soe superficial e desinteressante. A minha relação com chás me lembra de que sempre existe um ponto de equilíbrio e que tudo que eu produzo também precisa de harmonia e ponderação”.

O ritual

“Para tomar uma boa xícara você precisa da água na temperatura certa, das folhas em seu melhor estado de conservação, de uma boa cerâmica e de tempo para apreciar o aroma e o sabor, nem que seja apenas cinco minutos. Ou seja, é um exercício de presença e de temperança: tudo está balanceado de certa forma. E esse equilíbrio acaba trazendo a paz e a serenidade que eu preciso para viver o meu dia. Essa calma ajuda a me manter são na ‘Era da Ansiedade’ em que vivemos. Me lembra de que não preciso levar as coisas tão a sério e nem com tanta pressa. Não importa se eu estou tomando o chá mais sofisticado ou um sachê qualquer que achei na cozinha; ambos me lembram de como a vida pode ser tão simples e tão saborosa. No final das contas, é só água quente com algumas folhas soltas. Como um mestre de chás me disse uma vez, ‘é só chá’”.

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